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HISTÓRIA MAL CONTADA

O FATO QUE SE CONTA

Napoleão não tinha 1,57 metro: esse número surge quando cinco pés e duas polegadas franceses são lidos como medidas britânicas. Os registros apontam para cerca de 1,69 metro, enquanto a caricatura de sua baixa estatura já circulava em 1803.

Em 6 de maio de 1821, um dia depois da morte de Napoleão Bonaparte, o médico Francesco Antommarchi realizou sua autópsia em Longwood, na ilha de Santa Helena. Louis Marchand, criado de quarto do imperador, acompanhou o procedimento, realizado na presença de uma delegação francesa e de sete médicos britânicos.

Antommarchi e Marchand também mediram o corpo. O resultado, preservado nas memórias do criado, parecia confirmar uma velha piada: cinco pés, duas polegadas e quatro linhas. Para o leitor moderno, parece a descrição de alguém realmente pequeno. Napoleão, afinal, era baixinho?

O problema estava escondido nas palavras. Aquelas medidas pertenciam a um sistema diferente do britânico. Quando fazemos a conversão, o personagem muda de tamanho. É o início da investigação.

Uma régua esquecida

O antigo pé francês, conhecido como pied du roi, tinha aproximadamente 32,48 centímetros. O pé britânico media 30,48. A diferença prosseguia nas divisões: a polegada francesa tinha cerca de 2,71 centímetros, e a inglesa, 2,54. As linhas eram subdivisões ainda menores da polegada francesa.

Ao converter as cinco unidades francesas de pé, duas polegadas e quatro linhas anotadas em Santa Helena, chegamos a aproximadamente 1,69 metro. Se alguém interpreta os mesmos algarismos como cinco pés e duas polegadas britânicas, obtém apenas 1,57 metro.

Uma leitura desatenta subtrai cerca de onze centímetros de Napoleão. E uma estatura comum no início do século XIX passa a parecer extraordinariamente pequena. O equívoco está na interpretação, não nos algarismos.

O historiador Thierry Lentz calcula a média dos franceses daquele período em aproximadamente 1,60 metro. Entre os convocados para a infantaria, as medidas habituais ficavam entre 1,65 e 1,69. Napoleão não destoava dos soldados de sua época.

Uma criatura de papel

Mas a caricatura do imperador diminuto nasceu antes da autópsia. Portanto, a confusão de unidades ajuda a perpetuar a lenda, mas não explica sua origem.

Em janeiro de 1803, James Gillray já desenhava Little Boney, o pequeno Bonaparte, numa gravura sobre as tensões políticas europeias. O artista britânico nunca vira Napoleão pessoalmente. Utilizava gravuras francesas como referência, transformando progressivamente o adversário em uma figura diminuta e agitada.

Em maio daquele ano, após o reinício da guerra entre França e Reino Unido, Gillray publicou outra imagem. Nela, Napoleão aparece pisoteando objetos, com palavras girando sobre sua cabeça. O título anunciava um pequeno Boney em pleno acesso.

Em outra gravura, publicada em junho, Gillray colocou o francês na palma da mão de um enorme rei George III. O monarca examina aquela criatura minúscula. A diferença de tamanho conta uma história política sem precisar de uma única estatística.

As gravuras circulavam numa sociedade em guerra. Não eram retratos, mas sátiras. Reproduzida por outros desenhistas, a figura atravessou décadas até parecer uma descrição física verdadeira.

O apelido e a guarda

Os soldados franceses chamavam seu comandante de le petit caporal, o pequeno cabo. A tradição associa o apelido à campanha italiana de 1796 e à proximidade entre o jovem general e suas tropas.

Era uma expressão de familiaridade, não uma descrição física. Há relatos que relacionam seu nascimento à batalha de Lodi, embora essa origem seja discutível. O apelido não comprova baixa estatura. Era uma maneira de aproximar o comandante daqueles que serviam sob suas ordens.

Também havia o cenário das cerimônias imperiais. Napoleão aparecia frequentemente acompanhado pelos granadeiros da Guarda, uma tropa de elite selecionada, entre outros critérios, pela altura. Segundo Lentz, seus integrantes mediam pelo menos 1,76 metro.

Acrescente os grandes barretes de pele daqueles soldados e o contraste visual torna-se inevitável. Cercado por figuras altas, o imperador parecia menor. A cena reforçava a piada dos caricaturistas.

O tamanho de uma história

Mas quanto media Napoleão, exatamente? A resposta exige cuidado. O historiador Marcel Dunan examinou o registro transmitido por Marchand e chegou a cerca de 1,686 metro, aceitando que aquelas eram medidas francesas.

Dunan, que publicou seu estudo em 1963, menciona ainda o registro de Andrew Darling, tapeceiro britânico encarregado de medições em Santa Helena. Darling anotou cinco pés e sete polegadas inglesas, valor próximo de 1,70 metro. Os testemunhos se aproximam, mas não produzem uma precisão absoluta.

As próprias fontes apresentam pequenas diferenças. Marchand registra quatro linhas, enquanto Thierry Lentz menciona três. A divergência muda o resultado em milímetros, não transforma Napoleão em um homem excepcionalmente baixo. Ainda assim, registros posteriores não oferecem a certeza de um levantamento moderno.

Nenhuma tradução da autópsia poderia ter criado aquela caricatura: Gillray já desenhava seu pequeno Napoleão dezoito anos antes da medição em Santa Helena.

A imagem nasceu na sátira, encontrou apoio num apelido e sobreviveu graças a números lidos fora de contexto. Entre o documento e a lenda existe uma régua esquecida.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que Marchand registrou cinco pés, duas polegadas e quatro linhas francesas para o corpo de Napoleão. A conversão aproxima essa medida de 1,69 metro. Outra anotação, atribuída ao britânico Andrew Darling, indica cerca de 1,70 metro em unidades inglesas.

Supõe-se que esses registros representem razoavelmente a estatura do imperador. A pequena diferença entre os testemunhos é compatível com maneiras distintas de medir e registrar, mas não conhecemos todos os procedimentos utilizados. A interpretação do apelido militar também admite nuances.

Perdeu-se a possibilidade de repetir a medição nas mesmas condições de 1821. Os relatos disponíveis não esclarecem integralmente os instrumentos e os procedimentos, e autores posteriores divergem até no registro das linhas: três ou quatro. Portanto, 1,69 metro é uma aproximação fundamentada, não uma certeza milimétrica.

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