FORMAS DO SAGRADO

O FATO QUE SE CONTA
Em 1945, perto de Nag Hammadi, no Alto Egito, vieram à luz códices de papiro em copta copiados no século IV. Entre cerca de 52 textos estava a única cópia completa do Evangelho de Tomé, preservada por mais de quinze séculos.
Em dezembro de 1945, perto dos penhascos de Jabal al-Tarif, no Alto Egito, uma coleção de livros antigos saiu do chão. As primeiras investigações registraram o relato de camponeses que diziam tê-los encontrado num grande jarro de cerâmica enquanto recolhiam terra para fertilizante. O achado é certo. Os detalhes da cena, não.
Décadas depois, a história ganharia elementos irresistíveis: Muhammad Ali al-Samman, o jarro quebrado, o medo de libertar um gênio, páginas usadas para acender o fogo. O problema é que os relatos mudaram. Divergem sobre quem estava presente, o ponto exato da descoberta e o que aconteceu depois.
Os manuscritos chegaram ao mercado de antiguidades do Cairo. Quando especialistas os examinaram, perceberam que eram códices de papiro, isto é, livros com páginas, não rolos. Foram copiados em copta, a última fase da língua egípcia antiga, principalmente no século IV.
O conjunto ficou conhecido como biblioteca de Nag Hammadi. Costuma-se falar em treze códices e cerca de 52 textos. Materialmente, sobreviveram doze livros em diferentes estados e folhas de um décimo terceiro. Até “biblioteca” é uma convenção, porque não sabemos se todos pertenceram à mesma coleção antiga.
Vozes entre as folhas
O texto mais famoso é o Evangelho de Tomé. Ele não narra nascimento, crucificação ou ressurreição. Reúne 114 ditos atribuídos a Jesus, alguns semelhantes aos evangelhos canônicos, outros diferentes. O leitor encontra sentenças, parábolas e enigmas, sem uma narrativa que os amarre.
Há uma correção importante. Nag Hammadi preservou a única cópia completa conhecida de Tomé, em copta, mas não seu único testemunho. Três fragmentos gregos encontrados décadas antes em Oxirrinco foram identificados, após 1945, como partes de versões do mesmo evangelho.
A coleção inclui o Apócrifo de João, sobre o mundo divino e a origem do cosmos, o Evangelho de Filipe, marcado por linguagem sacramental, e o Evangelho da Verdade, associado por muitos pesquisadores ao ambiente valentiniano. Há ainda textos herméticos e uma reelaboração de trecho da República, de Platão.
Por isso, chamar tudo de “evangelhos gnósticos” simplifica demais. Nem todos são evangelhos, nem todos cabem numa única corrente chamada gnosticismo. A pesquisa recente usa “gnóstico” com cautela, pois o rótulo pode apagar diferenças profundas entre textos, autores e comunidades.
Uma data escondida na capa
As próprias capas ajudam a datar os livros. Para endurecer o couro, encadernadores colaram papiros usados formando uma espécie de papelão. Na capa do Códice VII apareceram documentos datados de 341, 346 e 348. Logo, aquela encadernação só pode ser posterior a 348. O material descartado na capa virou, por acaso, um relógio arqueológico.
Os códices são posteriores à composição das obras. A maioria parece traduzir textos gregos mais antigos para o copta. O século IV é, portanto, a época dessas cópias, não necessariamente de cada obra. A data de composição de vários textos continua debatida.
Em 367, Atanásio, bispo de Alexandria, enviou sua 39ª Carta Festal. Nela aparece a primeira lista preservada com exatamente os 27 livros do Novo Testamento atual, acompanhada de advertências contra escritos considerados apócrifos ou heréticos. Era uma orientação episcopal, não uma lei imperial de destruição de livros.
Daí nasceu uma hipótese famosa: monges teriam escondido os códices quando o espaço para essas leituras se estreitou. É possível. Mas ligar diretamente o enterro à carta de 367 exige mais do que as evidências permitem. O processo de delimitação das leituras aceitáveis foi gradual e localmente complexo.
Quem fechou o jarro
Havia comunidades monásticas pacomianas na região, e a ligação com elas tem defensores importantes. Papiros reutilizados nas capas, práticas de cópia e marcas de leitura tornam uma origem monástica plausível. Estudos recentes chegam a defender que os livros eram lidos e copiados por monges. A proximidade geográfica, sozinha, não provaria isso.
Outros pesquisadores contestam essa reconstrução. Argumentam que os mesmos indícios não bastam para identificar proprietários pacomianos e que outros ambientes cristãos continuam possíveis. Nem o local exato da descoberta pôde ser confirmado arqueologicamente. A hipótese monástica é forte. Consenso, não.
Isso também desmonta a conspiração que costuma acompanhar Nag Hammadi. Os códices não provam um “cristianismo verdadeiro” secretamente apagado por uma operação central. Mostram algo historicamente mais útil: cristãos da Antiguidade tardia liam e copiavam um repertório textual mais amplo do que aquele que acabaria canonizado.
Quem guardou aqueles livros não deixou explicação. Talvez quisesse protegê-los, talvez retirá-los de circulação, talvez os depositasse por outra razão. O deserto não preservou uma resposta pronta. Preservou a documentação material de um mundo religioso em que as fronteiras ainda estavam sendo traçadas.
O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU
Sabe-se que os códices foram produzidos no Egito tardo-antigo, principalmente no século IV, e que a coleção continha cerca de 52 textos em copta, em sua maioria traduções de obras gregas anteriores.
Supõe-se que tenham relação com comunidades monásticas da região, possivelmente pacomianas, e que o ocultamento possa ter ocorrido num ambiente de crescente controle sobre leituras consideradas não canônicas. As duas ligações continuam debatidas e não há documento antigo que explique o enterro.
Perdeu-se a identidade de quem reuniu, possuiu e escondeu os livros, assim como a razão concreta do depósito. Os relatos modernos também não permitem reconstruir com segurança todos os detalhes da descoberta de 1945.
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