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ARQUIVO 002

Em 1942, num brejo de turfa chamado Brøns Mose, na ilha da Zelândia, Dinamarca, a pá de um trabalhador bateu em algo duro a setenta centímetros da superfície. Ele achou que era entulho e pôs de lado. Era um capacete de bronze com dois chifres longos e curvos, ornado com olhos e bico de ave de rapina. Perto dele apareceram um segundo, quase idêntico, e uma bandeja de madeira de freixo que servia de suporte.

Os capacetes de Viksø são os únicos capacetes de metal com chifres que sobreviveram no norte da Europa. São escandinavos. Estão expostos no Museu Nacional da Dinamarca, e qualquer pessoa pode olhar para eles.

Não têm absolutamente nada a ver com vikings.

O que sobrou de verdade

Em março de 1943, na fazenda Gjermundbu, em Ringerike, na Noruega, um lavrador nivelava um monte de terra para construir uma casa quando começou a desenterrar objetos. Era um túmulo do século X, um dos mais ricos já achados no país. Dentro dele estava o objeto mais próximo de um capacete viking que a arqueologia já produziu.

É uma calota de ferro montada com quatro placas, com uma máscara ocular em forma de óculos para proteger olhos e nariz. Nenhum chifre. Nenhuma asa. Nenhum ornamento. É um objeto duro, funcional e feio, feito para que golpes escorreguem por ele.

E é quase tudo o que temos. Somando os fragmentos de Tjele, o capacete de Yarm, o pedaço de Lokrume e um fragmento vindo de Kiev, chega-se a cinco capacetes conhecidos em toda a Era Viking, quase três séculos de história. Vale registrar até onde a honestidade nos obriga a ir: o próprio Gjermundbu é chamado de "o único capacete viking completo", e os especialistas que o examinaram de perto dizem que isso é falso, porque ele chegou até nós em fragmentos colados sobre uma matriz de gesso. Uma reconstrução, não um achado intacto.

A noite em que os chifres subiram ao palco

Em agosto de 1876, Richard Wagner estreou em Bayreuth o ciclo completo de O Anel do Nibelungo. Os figurinos eram de Carl Emil Doepler, e Doepler tomou uma decisão de vestuário que ninguém tinha tomado antes. Ele pôs chifres de boi nas cabeças dos personagens germânicos.

A filóloga Roberta Frank, de Yale, reconstituiu essa história num estudo que virou referência, The Invention of the Viking Horned Helmet. O achado mais revelador dela não é o chifre. É o que existia antes dele. Até então, o viking imaginário do século XIX usava asas. Chifres eram acessório de bretões e gauleses, povos que ao menos tinham alguma reivindicação histórica sobre eles. Depois de Bayreuth, os chifres migraram para todo capacete viking desenhado no Ocidente.

As fontes divergem sobre a paternidade exata. O sueco Gustav Malmström já havia ilustrado a Saga de Frithiof com reis usando pequenos chifres laterais e até asas de dragão, décadas antes da ópera, o que sugere que Doepler bebeu de um imaginário romântico já em formação. O que ninguém disputa é o efeito. Foi o palco de Wagner, e não o campo de batalha, que fixou a imagem. Em pouco tempo os chifres já estavam nos manuais de heráldica, apresentados como ornamento autêntico dos vikings, e de lá foram para os livros escolares, os cartazes, os desenhos animados e o escudo de um time de futebol americano de Minnesota. Menos de cinquenta anos separam um figurino de teatro de um fato consagrado.

Por que aquilo nunca funcionaria

Um capacete existe para que o golpe escorregue. Uma superfície lisa e curva desvia a lâmina do machado. Dois chifres transformam a mesma superfície em alça: qualquer inimigo pode enganchar o golpe, torcer o pescoço do adversário ou simplesmente arrancar a proteção da cabeça dele.

Aqui é preciso complicar a própria correção, porque a documentação não é limpa. Guerreiros com chifres na cabeça aparecem, sim, em imagens escandinavas próximas da Era Viking. O Museu Nacional da Dinamarca observa que a tapeçaria encontrada no navio de Oseberg, na Noruega, mostra figuras com capacetes chifrudos. A leitura dominante entre os arqueólogos é que essas figuras são cultuais, dançarinos ou personagens ligados ao culto de Odin, e não soldados a caminho de uma incursão. É uma interpretação sólida. Não é uma certeza.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que nenhuma escavação, nenhum sepultamento e nenhum naufrágio da Era Viking entregou um capacete com chifres. Sabe-se também a idade dos capacetes de Viksø, e com precisão incomum. Em 2019, uma arqueóloga do Museu Moesgaard notou um resíduo orgânico escuro dentro de um dos chifres ocos. Era piche de bétula, material datável por carbono. A datação, publicada por Helle Vandkilde e sua equipe, situou o depósito dos capacetes no brejo entre 1006 e 857 a.C. Por volta de 900 antes de Cristo. Os vikings apareceriam quase dois mil anos depois.

Supõe-se que os capacetes de Viksø eram cerimoniais. Traziam encaixes para plumas e crinas de cavalo, e foram depositados na água como oferenda, o que aponta para exibição de poder e ritual religioso, não para combate. Suposição forte, mas suposição. Ninguém provou que nunca subiram numa cabeça em briga. Nem sequer sabemos onde foram fabricados: o próprio museu admite que podem ter vindo da Europa central ou do norte da Alemanha, sem descartar a Dinamarca.

Perdeu-se a resposta para a pergunta mais banal de todas: quantos vikings usavam capacete? Ferro era caro e reaproveitado, capacetes não costumavam ir para as sepulturas nem eram sacrificados como lanças e espadas, e é bem possível que poucos guerreiros tivessem um. O saqueador comum que desembarcou em Lindisfarne provavelmente não tinha chifre nenhum na cabeça. Provavelmente não tinha capacete nenhum.

Dois mil anos de atraso

O capacete com chifres é escandinavo de verdade. Está no museu, é feito de bronze, tem os chifres curvos que o mundo inteiro imagina. Só que pertence à Idade do Bronze nórdica, e os vikings chegariam vinte séculos mais tarde.

É como se, daqui a dois mil anos, alguém encontrasse uma coroa medieval e concluísse que ela era o uniforme dos motoristas de aplicativo do século XXI.

A distância entre os dois objetos é maior do que a distância entre nós e o Império Romano. E ela foi apagada por um figurinista com prazo para entregar.

O FATO QUE SE CONTA

O capacete com chifres é escandinavo de verdade, só que da Idade do Bronze. Quando os vikings apareceram, ele já estava enterrado num brejo dinamarquês havia dois mil anos.

ARCANA HISTÓRIA

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