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ARQUIVO 014

O FATO QUE SE CONTA

O culto de Mitra teve centenas de templos e sete graus de iniciação por todo o Império Romano, mas não deixou uma única linha de escritura própria. Quase tudo o que sabemos dele vem de pedras, imagens e dos autores cristãos que o combatiam.

No chão de um pequeno templo em Óstia, o antigo porto de Roma, sete símbolos se enfileiram num mosaico. Um corvo e um caduceu. Um capacete e uma lança. Cada par marca um grau de iniciação, e a fileira leva o olhar até o altar. Quem pisava ali sabia ler aquilo. Nós, não inteiramente.

O templo se chama mitreu, e havia centenas deles pelo Império Romano, da Britânia ao Danúbio. Todos guardavam a mesma cena esculpida: um jovem de gorro frígio cravando um punhal no pescoço de um touro, com um cão, uma serpente e um escorpião sobre o animal. A imagem se repete, quase idêntica, em todo o império.

E dessa religião praticada por séculos não sobrou uma linha de escritura própria. Nenhum livro sagrado, nenhuma oração, nenhum tratado que explique o touro. Tudo o que sabemos do culto de Mitra veio de fora.

Um templo em forma de caverna

O culto floresceu entre os séculos I e IV depois de Cristo, e prosperou onde havia soldados. Os mitreus se concentram nas fronteiras do Reno e do Danúbio. Legionários, libertos e mercadores formavam suas fileiras, e só iniciados do sexo masculino entravam.

O espaço era sempre subterrâneo, ou construído para imitar uma caverna. Bancos corridos ladeavam uma nave estreita, e no fundo ficava a cena do touro. Cabiam poucos, de quinze a trinta. Não era igreja de multidão, e sim confraria pequena.

Mais de quatrocentos mitreus foram identificados, e só em Óstia, pelo menos quinze.

A cena central tem nome moderno, tauroctonia, palavra grega para o abate do touro. Por muito tempo se imaginou que o culto sacrificasse touros de verdade. Os ossos achados nos mitreus dizem outra coisa: as refeições rituais eram de frango e de porco.

A imagem era para contemplar, não rito a executar. O sacrifício de touros pertencia a outro culto, o de Cibele, e as duas coisas andam confundidas há mais de um século.

Sete degraus até o Pai

O iniciado subia por sete graus, e sabemos os nomes porque duas fontes coincidem. Uma é o mosaico de Óstia. A outra é uma carta de Jerônimo, autor cristão, escrita por volta de 403 para atacar o culto. Os graus, do primeiro ao último, eram Corvo, Noivo, Soldado, Leão, Persa, Mensageiro do Sol e Pai, cada um sob a proteção de um planeta.

A cada grau correspondiam símbolos e, ao que tudo indica, provas. Tertuliano registrou uma cena do grau de Soldado: oferecia-se ao iniciado uma coroa na ponta de uma espada, e ele devia recusá-la, dizendo que Mitra era a sua coroa.

No topo estava o Pai, que dirigia a comunidade. A hierarquia de dentro não copiava a de fora, e um soldado raso podia estar acima do próprio centurião.

Sabemos os nomes, os planetas e alguns símbolos. O que se ensinava em cada degrau, as palavras ditas, o sentido de cada prova, nada disso sobreviveu.

Tudo o que se sabe veio de fora

Repare de onde vêm as informações. De um piso de mosaico. De uma carta escrita para condenar o culto. De ossos de cozinha.

Nenhuma dessas fontes parte de um praticante explicando a própria fé. É uma religião conhecida quase só por seus objetos e por seus críticos. Justino, por volta de 150, descreveu uma refeição de pão e cálice, e acusou o culto de imitar a eucaristia cristã.

No início do século XX, o belga Franz Cumont sustentou que o Mitra romano era o antigo deus persa adaptado ao Ocidente. A tese dominou décadas, e depois ruiu.

Nenhum templo parecido com um mitreu foi achado no Irã, e a tauroctonia, os sete graus e o mitreu-caverna não têm precedente persa claro. Hoje se entende o culto romano como criação em boa parte nova, com forte carga astrológica.

O nome persa e o gorro frígio funcionavam como selo de prestígio, não como prova de linhagem. Quanto havia de herança iraniana ainda se discute, e a resposta honesta é que ninguém fechou a conta.

O silêncio que ficou

O culto recuou depressa quando o império se tornou cristão. No fim do século IV, as leis de Teodósio fecharam os templos pagãos, e vários mitreus foram desativados.

Alguns terminaram destruídos de propósito, com cenas do touro quebradas.

Sobre outros ergueram-se igrejas. Em Roma, sob San Clemente e sob Santa Prisca, o mitreu segue lá embaixo, soterrado pela fé que o substituiu.

Restou o desenho e sumiu a voz. Temos a arquitetura, as imagens e os símbolos, mas não as palavras que davam sentido a tudo. O mitraísmo é o raro caso de uma fé que se pode ver quase inteira e mal se consegue ouvir.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que o culto existiu do século I ao IV, sobretudo entre soldados, que se reunia em templos subterrâneos e que organizava os iniciados em sete graus, cada um ligado a um planeta. Isso vem da arquitetura, das imagens e das inscrições.

Supõe-se o que a cena do touro significava e o que se ensinava em cada grau. As leituras vão da astrologia à salvação da alma, mas todas são inferências sobre imagens, sem explicação deixada pelos próprios praticantes.

Perdeu-se a escritura do culto, se é que houve uma. Nenhuma oração, nenhum mito narrado, nenhuma doutrina de um iniciado sobreviveu. Ficaram os desenhos e sumiram as palavras.

ARCANA HISTÓRIA

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