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ENIGMAS ABERTOS

O FATO QUE SE CONTA

Por volta de 1700 a.C., em Creta, alguém compôs um texto em barro usando sinais estampados por pequenos selos reutilizáveis. É um dos exemplos mais antigos conhecidos desse princípio de impressão. Mais de três mil anos depois, ainda não sabemos o que o texto diz.

Numa ilha mediterrânea, por volta de 1700 a.C., alguém fez algo que parece impossível para a época. Pressionou pequenos selos em barro úmido e compôs um texto inteiro pela repetição de sinais previamente talhados. Depois, a peça foi queimada.

A comparação com a tipografia é tentadora. Mais de três mil anos antes de Johannes Gutenberg trabalhar com tipos móveis em Mogúncia, alguém em Creta já havia percebido que um mesmo sinal podia ser fabricado uma vez e impresso muitas vezes.

A peça tem cerca de dezesseis centímetros de diâmetro, dois lados cobertos por 241 impressões e 45 signos diferentes. Chama-se Disco de Festo. Está no Museu Arqueológico de Heraclião, em Creta, desde que foi encontrado em 1908 durante as escavações dirigidas pelo arqueólogo italiano Luigi Pernier.

Em mais de um século, ninguém conseguiu lê-lo de maneira aceita pelos especialistas.

E talvez falte justamente aquilo que tornaria isso possível.

Uma noite de julho em Festo

Pernier trabalhava em Festo desde o início das escavações italianas quando, no fim do dia 3 de julho de 1908, o encarregado local Zakarias Iliakis percebeu o objeto no solo. O disco estava no complexo situado a nordeste do palácio, próximo de uma tabuleta em Linear A. A cerâmica associada situa o contexto aproximadamente no início do século XVII a.C.

Pernier publicou a descoberta pouco depois. Esperava-se que outras inscrições ajudassem a entender aqueles sinais. Isso nunca aconteceu.

Mais de um século depois, nenhum segundo texto escrito pelo mesmo sistema apareceu em Festo, Cnossos ou qualquer outro sítio minoico. Existem paralelos isolados. O mais conhecido está no chamado machado de Arcalochóri, uma peça de bronze com sinais que lembram alguns dos encontrados no disco. Mas não é suficiente para fornecer uma chave.

Essa solidão é o primeiro problema.

Toda decifração de escrita antiga depende de comparação. Champollion avançou sobre os hieróglifos egípcios com a ajuda decisiva da pedra de Roseta. Michael Ventris trabalhou com milhares de inscrições em Linear B até demonstrar que aquela escrita registrava uma forma antiga de grego.

O disco de Festo tem apenas a si mesmo. E, ainda assim, já foi lido centenas de vezes.

O gesto que não deveria existir

A estranheza aparece antes mesmo de se tentar compreender os símbolos. As impressões repetidas são praticamente idênticas. Cabeças, plantas, aves, figuras humanas e outros sinais reaparecem com os mesmos contornos.

Eles não foram desenhados um a um. Foram estampados.

Isso significa que alguém produziu previamente uma série de pequenos selos, provavelmente de madeira, osso, marfim ou outro material que não sobreviveu, e os pressionou sobre o barro ainda mole.

Esse detalhe tornou o disco famoso também na história das técnicas de impressão. Não é tipografia no sentido desenvolvido muito mais tarde na China ou na Europa. Não havia uma prensa, nem sabemos se os sinais foram criados para produzir muitos textos.

Mas o princípio da reutilização estava ali. Um sinal era fabricado uma vez e podia ser repetido sempre que necessário.

Não sabemos se aqueles selos foram usados em outros discos. Talvez tenham servido a outros objetos de barro. Talvez tenham marcado materiais perecíveis, como tecido, couro ou cera. Talvez o disco tenha sido único.

O que sobreviveu não permite escolher entre essas possibilidades.

Cento e dezoito anos de leituras

Desde a descoberta, surgiram centenas de tentativas de interpretação. O disco já foi apresentado como hino religioso, oração, texto administrativo, calendário, registro de oferendas e relato militar. Também houve propostas de identificar sua língua como grego, luvita e diferentes idiomas do Mediterrâneo antigo.

Nenhuma dessas leituras conquistou consenso acadêmico.

O problema não é apenas encontrar uma tradução que pareça fazer sentido. Com somente 241 impressões e nenhum texto comparável, é possível construir interpretações coerentes sem conseguir testá-las externamente.

Uma tradução pode parecer boa e continuar impossível de provar.

Em 2008, no centenário da descoberta, o antiquário norte-americano Jerome Eisenberg defendeu que o disco seria uma falsificação produzida pelo próprio Pernier, possivelmente para rivalizar com as grandes descobertas de Arthur Evans em Cnossos.

A hipótese não se tornou dominante. O disco continua sendo tratado pela maior parte da bibliografia especializada e pelo Museu Arqueológico de Heraclião como um artefato minoico. Paralelos encontrados posteriormente em Creta, sobretudo no machado de Arcalochóri, também dificultam a ideia de uma invenção moderna.

Mas autenticidade não significa compreensão.

Podemos saber aproximadamente quando o disco foi produzido, onde apareceu e como seus sinais foram impressos. Ainda não sabemos o que alguém quis dizer com eles.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que o disco foi encontrado em 1908 durante as escavações dirigidas por Luigi Pernier em Festo. Seus dois lados carregam 241 impressões, divididas em grupos, produzidas a partir de 45 tipos diferentes de sinais. O Museu Arqueológico de Heraclião o situa aproximadamente entre 1700 e 1650 a.C.

Supõe-se que os grupos correspondam a palavras e que o texto possa ter função religiosa, administrativa ou dedicatória. A repetição de determinadas sequências levou alguns pesquisadores a sugerir um hino ou encantamento. Não existe consenso sobre a língua registrada nem sobre sua relação com outras escritas de Creta.

Perdeu-se aquilo que permitiria testar uma leitura: outros textos escritos pelo mesmo sistema, uma inscrição bilíngue ou alguma referência externa segura. Sem novas descobertas, qualquer tradução continuará difícil de demonstrar.

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