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ARQUIVO 018

O FATO QUE SE CONTA

Em Edo, no período Tokugawa, o excremento humano era mercadoria vendida por contrato de exclusividade. O dejeto de um bairro rico custava mais caro que o de um bairro pobre, porque a comida melhor deixava mais nutriente no resíduo.

Antes do amanhecer, um trabalhador passava pelos becos de um bairro pobre de Edo com dois potes de cerâmica lacrados numa vara. Não vinha recolher lixo. Vinha buscar algo pelo qual pagara adiantado, em arroz ou prata. A mercadoria era o conteúdo das latrinas do quarteirão.

Aquilo tinha nome, preço e contrato. O sistema se chamava shimogoe, algo como "adubo de baixo". Na virada do século XVIII, Edo passava de um milhão de habitantes, mais do que Londres e de Paris, e nenhuma tinha esgoto. Em Londres, o dejeto era jogado pela janela. Em Edo, valia dinheiro.

A razão era agrícola antes de sanitária. O Japão do período Tokugawa, de 1603 a 1868, criava pouco gado e comia pouca carne por influência budista, e a lavoura ficava sem esterco. O campo precisava de nutriente, a cidade o produzia em escala, e disso nasceu um mercado.

O contrato do que ninguém queria ver

O direito sobre o dejeto era do dono do prédio, não de quem morava nele. Essa distinção jurídica é o coração do sistema. Um dono de cortiço com muitos inquilinos tinha ali renda fixa, à parte do aluguel. Registros apontam donos que embolsavam de trinta a quarenta ryō por ano só com as latrinas.

O acordo tinha contrato escrito. Chamava-se tsuke-tsubo, e dava ao comprador o direito de recolher, por um ano, tudo o que saísse de uma propriedade. Era exclusividade. Quem assinava não queria concorrente esvaziando a fossa que comprara.

A cadeia se sofisticou, com depósitos e atravessadores. Em Osaka, barcaças entravam cheias de verdura e voltavam cheias de dejeto.

O negócio era sério a ponto de aldeias irem à justiça pelo direito de recolher. Entre 1789 e 1867, ao menos quatro conflitos maiores estouraram em torno do preço, e o primeiro envolveu mais de mil aldeias. Os camponeses culpavam os atravessadores pela alta e pediam ajuda à autoridade.

Por que o dejeto do rico custava mais

Aqui está o detalhe que quase ninguém acredita de primeira. O preço não era único: o material dos bairros ricos valia mais que o dos pobres.

A lógica era agronômica, não simbólica. Quem come bem excreta melhor, do ponto de vista da lavoura. Dieta rica em peixe e em alimentos variados deixava mais nutriente no resíduo, e resíduo mais potente rendia colheita melhor.

Coletores em Edo pagavam ágio para esvaziar as latrinas das mansões dos daimyō, os senhores feudais, e das casas caras de Yoshiwara, o bairro de prazeres. O requinte chegava ao absurdo. Nos anos 1830, cultivadores de chá de Uji só aceitavam o dejeto de duas ruas nobres de Quioto para as melhores plantas.

Camponeses dos arredores diziam saber a renda de uma casa só de olhar a fossa. Parecia superstição de lavrador.

Não era. Estudos do início do século XX confirmaram que dieta rica em proteína gera dejeto rico em nitrogênio, o nutriente que a planta mais valoriza. O lavrador não sabia a química, mas sabia o resultado.

A outra ponta do mesmo dia

O mesmo cotidiano que vendia o conteúdo da latrina lavava o corpo em público. A cidade era coberta de casas de banho, os sentō, o oposto luminoso da fossa. Em 1810, havia ao menos 523.

O sentō não servia só para lavar. Era onde o bairro se encontrava e sabia da vida alheia. No início do período, o banho misto entre os dois sexos era comum, para incômodo das autoridades, que tentaram regulá-lo.

Em muitas casas, o segundo andar virava sala de estar, com chá e jogo de tabuleiro, onde lavar-se era ato social antes de higiênico.

Junte as duas cenas e aparece uma cidade que tratava o corpo com franqueza incomum. O que saía dele tinha mercado. Faltava ali o nojo que organizava a vida urbana europeia.

O que a limpeza não prova

Falta desfazer um exagero que circula bastante hoje. A internet apresenta Edo como utopia ecológica consciente, que reciclava por virtude ambiental e assim teria escapado das pestes. Essa leitura força a mão.

Historiadores como David Howell lembram que o benefício sanitário foi efeito colateral do mercado, não projeto verde. Ninguém vendia dejeto para salvar o ambiente, e sim porque dava lucro. A cidade ficava limpa de quebra.

Quando podiam ser relapsos, os moradores eram, e muito do lixo dos bairros pobres ia por cima do muro do vizinho. Edo tampouco era imune à doença. Varíola e sarampo voltavam em ondas, e o cólera, ao chegar em 1858, matou muito.

Ela escapou de um desastre específico, a epidemia de água de esgoto que castigou Londres, e não de todos.

Uma cidade gigante resolveu por interesse próprio um problema que sufocou capitais europeias, porque o excremento, ali, tinha dono, contrato e cotação.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que o mercado de dejeto existia, que o preço variava conforme o bairro de origem e que as grandes cidades japonesas eram mais limpas que as europeias do mesmo porte, sem esgoto a céu aberto.

Supõe-se que isso ajudou a saúde pública, mas o peso exato é disputado. Vários historiadores alertam que a limpeza foi efeito colateral do lucro, não projeto sanitário, e que Edo ainda sofria com varíola, sarampo e cólera.

Perdeu-se a chance de medir o efeito com precisão. Não há, para Edo, estatísticas de mortalidade comparáveis às que a Europa começou a produzir no século XIX, e sem elas a comparação fica na estimativa.

ARCANA HISTÓRIA

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