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ARQUIVO 017

O FATO QUE SE CONTA

As melhores lâminas da Era Viking traziam o nome Ulfberht gravado entre duas cruzes. A marca era tão valiosa que surgiram cópias em aço comum, com o nome falsificado e às vezes escrito errado, para se passar pelo produto verdadeiro.

Numa lâmina de ferro forjada no norte da Europa entre os séculos IX e XI, alguém embutiu, em letras de outro metal, uma única palavra: +VLFBERHT+. Em dezenas de outras lâminas, a mesma palavra reaparece, sempre entre duas cruzes. Em algumas, algo saiu errado. Uma letra fora de lugar, uma cruz no ponto indevido.

Essas são as cópias.

Conhecem-se hoje cerca de 170 dessas lâminas, quase todas na Escandinávia. São o grupo mais famoso de espadas da Era Viking, e guardam um paradoxo que a metalurgia moderna revelou. Parte foi feita de um aço excepcional para a época. Outra parte apenas fingia ser.

A palavra gravada virou objeto de cobiça. E, como toda coisa cobiçada, virou alvo de imitação. Diante de nós não está só uma arma. Está uma marca, falsificada mil anos antes de existirem marcas.

Um aço fora do seu tempo

Quando metalurgistas cortaram e examinaram as melhores dessas lâminas, encontraram algo que não esperavam. O aço era limpo, quase sem escória, com carbono em alta concentração e distribuído de forma homogênea, perto de 1,2%. O carbono é o que eleva a dureza do ferro, e o difícil é distribuí-lo por igual.

O método europeu do tempo não produzia isso. A forja de redução direta nunca derretia o ferro por completo. Deixava uma massa esponjosa cheia de escória, a impureza vítrea que sobra do minério, com carbono irregular. Saíam boas lâminas, nenhuma tão limpa.

O metal limpo chama-se aço de cadinho. Ferro e carbono selados num pote de argila e aquecidos até derreter, num lingote homogêneo. Fazia-se na Índia e na Ásia Central desde a Antiguidade. Na Europa do ano 900, não estava no repertório conhecido.

Aqui a versão sensacionalista assume e fala em superespada fora do tempo. Vale desinflar. O aço de cadinho não era milagre. Existia, só não no norte franco. A pergunta verdadeira é logística: como esse metal foi parar numa lâmina forjada perto do Reno.

E não era toda Ulfberht que o trazia. Alan Williams, da Wallace Collection, examinou dezenas dessas lâminas e viu que só uma parte tinha o aço excepcional. O resto era comum. O nome, o mesmo. O metal, não.

A grife e seus imitadores

Williams notou um padrão na inscrição. Nas lâminas de bom aço, a segunda cruz costumava cair antes da última letra: +VLFBERH+T. Nas comuns, caía depois: +VLFBERHT+. O segundo grupo copiava o primeiro, tomando o nome sem o metal que o justificava.

A interpretação é discutida, e nem todo exemplar segue a regra. Mas o fenômeno central não está em dúvida. Entre as cerca de 170 lâminas, há nomes escritos errado, com letras fora de ordem. Alguém reproduzia uma marca que admirava e, às vezes, nem sabia ler direito.

É a definição de uma falsificação. Um sinal de valor copiado sobre um produto inferior para roubar reputação. O nome Ulfberht passara a valer mais que o ferro embaixo dele.

As cruzes talvez digam mais. Em documentos francos, elas emolduravam as assinaturas de abades e bispos. Há quem suspeite que Ulfberht estivesse ligado a um mosteiro, e que o nome fosse menos de um artesão do que de uma casa. O que aprofunda a pergunta sobre quem, ou o que, ele foi.

De onde vinha o gume

Sobre a origem do bom aço, as fontes divergem, e com firmeza.

A reconstrução de Williams é a mais conhecida. O metal chegava em lingotes vindos da Índia ou da Pérsia, levados ao norte pela rota do Volga, a via dos mercadores escandinavos rumo ao mar Cáspio. As lâminas genuínas se concentram nos séculos de maior movimento da rota.

Outros contestam. O químico Robert Lehmann estudou uma Ulfberht do século X tirada do rio Weser em 2012. A lâmina era rica em manganês, a guarda em arsênio, ambos apontando para minério europeu. O chumbo do pomo foi rastreado até o Taunus, perto de Frankfurt. Para ele, a espada nasceu perto de casa. E há quem sustente que os europeus sabiam produzir aço limpo de alto carbono.

O objeto guarda, então, dois mundos possíveis. Num, uma lâmina numa sepultura escandinava se liga a uma fornalha na Índia. No outro, a história fica na Renânia franca. Ainda não sabemos qual. Talvez ambas, para lâminas diferentes.

O que sabemos é mais estranho que qualquer teoria. Um nome numa peça de ferro ficou tão valioso que o falsificaram, mal, por dois séculos. E o objeto ainda carrega duas perguntas sem resposta. Onde nasceu o aço, e quem foi Ulfberht. Uma marca pode sobreviver à memória de quem a criou. Esta sobreviveu, com folga.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que cerca de 170 lâminas com a inscrição Ulfberht chegaram até nós, datadas entre os séculos IX e XI, e que parte delas foi feita de aço de cadinho, limpo e de alto teor de carbono, incomum na Europa da época.

Supõe-se de onde vinha esse aço. Williams defende que chegava em lingotes importados do Oriente pela rota do Volga. Lehmann e outros apontam origem europeia, com base na composição do metal e no chumbo rastreado até a região do Taunus. A disputa segue aberta.

Perdeu-se a identidade por trás do nome. Não se sabe se Ulfberht foi um ferreiro, uma família, uma oficina ou uma marca herdada por gerações, nem quantas das 170 lâminas são genuínas.

LIVRO RECOMENDADO

Vikings: A história definitiva dos povos do norte, de Neil Price.

O motivo da recomendação: é o melhor panorama recente da Era Viking, escrito por um arqueólogo de Uppsala, e trata justamente das redes de comércio de longa distância (a rota do Volga entre elas) e da cultura material que dão o pano de fundo do enigma das Ulfberht. Também desfaz a caricatura do "bárbaro", no espírito da nossa régua.

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