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ENIGMAS ABERTOS

O FATO QUE SE CONTA

Heródoto diz que uma tempestade de areia engoliu o exército enviado por Cambises ao deserto egípcio. Uma hipótese moderna propõe outra coisa: a tropa pode ter sido derrotada por rebeldes de Petubástis, e a tempestade preservaria uma versão politicamente conveniente.

O que sabemos termina numa cidade chamada Oásis. Heródoto diz que uma força persa enviada por Cambises II partiu de Tebas, atravessou o deserto com guias e chegou ali depois de sete dias. Depois disso, ninguém voltou.

Segundo o historiador grego, cerca de cinquenta mil soldados deveriam subjugar os amonianos e incendiar o oráculo de Zeus Ammon, identificado com Amon, no deserto ocidental egípcio. O destino tradicionalmente entendido é o oásis de Siuá.

Então vem a história que atravessou vinte e cinco séculos. Quando o exército estava no meio do caminho, uma tempestade vinda do sul teria levantado tanta areia que cobriu toda a tropa. Cinquenta mil soldados desapareceram no deserto.

Mas Heródoto avisa que, depois de Oásis, ninguém sabia o que ocorrera além dos próprios amonianos e de quem ouvira deles. A tempestade não é testemunho direto. É uma tradição oral registrada décadas depois.

Onde a areia começa

Cambises conquistou o Egito em 525 a.C., inaugurando a XXVII Dinastia, quando o país passou ao domínio aquemênida. Heródoto associa a expedição a outros projetos militares do rei e constrói um Cambises marcado por excesso e impiedade.

Isso exige cautela. Estudos modernos mostram que esse retrato também tem função literária. Isso não transforma cada episódio em invenção, mas impede que o Livro III seja lido como uma ata militar persa.

Há ainda um problema geográfico. Partir de Tebas para chegar a Siuá é uma escolha estranha. A rota descrita combina melhor com Kharga, nos oásis meridionais. A identificação do destino final não é tão simples quanto a versão popular sugere.

Até o número de cinquenta mil é discutível. Olaf Kaper observa que uma força desse tamanho seria pouco prática numa longa travessia desértica, devido à água e aos mantimentos necessários. O número pode registrar grande escala, não um efetivo exato. É um detalhe importante, porque buscar literalmente cinquenta mil corpos pode ter condicionado dois séculos de procura.

O exército que reaparece

A falta de restos nunca impediu anúncios de descoberta. Em 2000, uma equipe da Universidade de Helwan encontrou tecidos, metal e restos humanos no deserto ocidental e sugeriu ligação com o exército. A notícia saiu na revista Archaeology. A identificação não foi demonstrada.

Em 2009, Angelo e Alfredo Castiglioni anunciaram armas, objetos e ossos atribuídos aos persas de Cambises. O Conselho Supremo de Antiguidades do Egito contestou a alegação e afirmou que os pesquisadores não tinham autorização para escavar naquele contexto.

Esse é o problema. Ossos, pontas de flecha ou cerâmica antiga não bastam. Seria preciso contexto arqueológico seguro, datação coerente e uma associação material compatível com um contingente militar. Até hoje, isso não apareceu de forma confiável.

Por isso, o exército perdido de Cambises continua perdido. Não existe campo de batalha identificado, vala coletiva atribuída com segurança à expedição ou conjunto de equipamento persa capaz de mostrar onde a marcha terminou. As buscas documentadas desde o século XIX não produziram essa evidência.

A ausência abriu outra pista. Em vez de procurar cinquenta mil esqueletos sob uma duna, pesquisadores passaram a perguntar se o erro estava na própria história da tempestade.

Um faraó no oásis

Em Amheida, no oásis de Dakhla, escavações encontraram blocos de um templo de Thoth com a titulatura de um rei rebelde chamado Petubástis. Ele aparece em trabalhos antigos como Petubástis III. Kaper prefere Petubástis IV, para distingui-lo de outro rei homônimo.

Os blocos mostram atividade real em Dakhla e um programa de construção. Para Kaper, o oásis teria servido de base a uma revolta egípcia contra o domínio persa nos últimos anos de Cambises e no início do reinado de Dario I.

Sua hipótese muda tudo. O contingente de Cambises teria marchado não para destruir Siuá, mas para esmagar a rebelião. Teria sido derrotado por Petubástis. Depois, com o controle persa restaurado, a derrota teria sido substituída na memória pela história de uma tempestade.

A inscrição, porém, não diz que Petubástis destruiu o exército. Ela prova sua presença e autoridade em Dakhla. A batalha e o encobrimento são uma reconstrução histórica. Até a cronologia da revolta é discutida.

Pesquisas recentes mantêm o caso aberto. Alguns estudiosos entendem que Heródoto combinou memórias diferentes sobre os oásis. Outros enfatizam que a tempestade é explicitamente uma tradição dos amonianos. Nenhuma leitura encontrou os soldados desaparecidos.

Talvez esteja aí o melhor do enigma. O deserto não entregou cinquenta mil corpos. Entregou um rei rebelde onde antes havia pouca história. E deixou uma pergunta mais difícil: se os persas perderam uma batalha, quem decidiu que o vento seria lembrado como vencedor?

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que Heródoto registrou o desaparecimento de uma força persa enviada ao deserto e atribuiu aos amonianos a história da tempestade. Também se sabe que inscrições encontradas em Amheida comprovam a presença e a autoridade de Petubástis no oásis de Dakhla.

Supõe-se que o contingente possa ter sido enviado contra essa rebelião e derrotado pelas forças de Petubástis. Olaf Kaper propõe ainda que a tempestade tenha substituído, na memória posterior, uma derrota militar humilhante.

Perdeu-se o destino concreto da tropa. Nenhum campo de batalha, sepultamento coletivo ou conjunto arqueológico foi identificado com segurança como o exército de Cambises. Sem isso, a causa do desaparecimento permanece aberta.

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