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O FATO QUE SE CONTA

Durante escavações em Lisht, em 1932 e 1933, arqueólogos encontraram figuras de barro com nomes de inimigos escritos em vermelho. Esses objetos provavelmente foram enterrados em ritos mágicos destinados a neutralizar as pessoas representadas.

Em 1932 e 1933, arqueólogos do Metropolitan Museum of Art escavavam uma antiga necrópole em Lisht, no Egito, quando encontraram pequenas figuras de barro cru espalhadas pela areia, perto da tumba de um alto funcionário chamado Senusretankh.

Eram objetos modestos, alguns com apenas sete centímetros de altura. Tinham corpos achatados e rostos rudimentares, como se alguém tivesse reduzido uma pessoa a poucos traços sobre uma placa de argila.

Mas havia algo mais perturbador naquelas figuras.

Seus corpos traziam nomes escritos em tinta vermelha. Eram nomes de pessoas identificadas como inimigas.

Os arqueólogos haviam encontrado vestígios de uma prática mágica egípcia conhecida como rito de execração, destinada a atingir adversários por meio de suas representações.

Os inimigos enterrados em Lisht

A descoberta aconteceu a oeste da mastaba de Senusretankh. Uma mastaba era uma construção funerária de base retangular e cobertura plana, comum entre membros da elite egípcia.

Senusretankh viveu durante a XII Dinastia e ocupou uma posição importante no reinado de Senusret I, faraó que governou aproximadamente entre 1961 e 1917 a.C. É possível que tenha participado do planejamento do complexo piramidal do soberano.

A tumba era monumental, mas os pequenos objetos encontrados nas proximidades pertenciam a outra época.

O Metropolitan Museum of Art data as figuras entre aproximadamente 1802 e 1550 a.C., período que abrange a XIII Dinastia e o Segundo Período Intermediário.

Isso significa que as figuras foram depositadas quando a tumba de Senusretankh já era antiga.

O conjunto incluía numerosas peças de barro não cozido. Algumas estavam fragmentadas. Havia também uma pequena caixa de barro com formato de caixão, que havia contido parte das figuras.

A descoberta sugeria algo além de uma simples coleção de representações humanas. Aquelas peças haviam sido reunidas e depositadas em um espaço funerário com um propósito aparentemente ritual.

O poder de escrever um nome

Para compreender aqueles objetos, é preciso conhecer uma característica importante da magia egípcia: o nome não era considerado apenas uma identificação.

Nas concepções religiosas egípcias, o nome integrava a identidade da pessoa. Preservá-lo podia contribuir para sua sobrevivência depois da morte. Apagá-lo ou atacá-lo ritualmente podia adquirir um significado oposto.

Nos ritos de execração, essa relação assumia uma forma especialmente hostil.

Os egípcios produziam figuras humanas, recipientes ou outros suportes sobre os quais inscreviam nomes de inimigos. Em determinados rituais, esses objetos podiam ser quebrados, mutilados, queimados ou enterrados.

A intenção era atingir simbolicamente aqueles que representavam.

Os alvos não eram necessariamente estrangeiros. As inscrições encontradas em Lisht identificam principalmente homens egípcios, embora também apareçam nomes estrangeiros.

Esse detalhe é revelador. A ameaça que se pretendia combater podia estar dentro do próprio Egito.

Não sabemos se os nomes correspondiam a adversários pessoais, indivíduos considerados perigosos por alguma autoridade ou participantes de conflitos específicos. As inscrições documentam a identificação dos inimigos, mas não reconstituem suas histórias.

Por que enterrar as figuras entre os mortos?

O lugar escolhido torna a descoberta particularmente interessante.

As figuras não foram encontradas em um templo dedicado exclusivamente à execução de cerimônias mágicas. Surgiram nas proximidades de uma tumba, numa área ligada ao complexo funerário de um faraó que já pertencia ao passado.

Segundo a interpretação apresentada pelo Metropolitan Museum of Art, durante a XIII Dinastia e períodos posteriores, pessoas depositaram objetos nessa região, possivelmente por acreditarem que a proximidade de monumentos considerados sagrados permitiria mobilizar forças mágicas.

O sepultamento das figuras pode ter sido entendido como uma maneira de provocar a destruição dos inimigos representados.

Essa interpretação encontra paralelos em outras práticas egípcias de execração, mas existe uma ressalva importante: não foi preservado um relato que descreva exatamente a cerimônia realizada com as figuras de Lisht.

Não sabemos quem as preparou, quem escreveu os nomes ou quais palavras foram pronunciadas, caso tenha havido uma recitação.

Também não é possível afirmar que todas tenham sido quebradas deliberadamente durante o ritual. Parte dos danos pode estar relacionada à sua história posterior.

Há, contudo, uma descoberta que ajuda a compreender o sentido daqueles objetos.

O pequeno caixão encontrado com o conjunto mostra que algumas figuras receberam um tratamento que lembrava, em sua forma material, um sepultamento humano. Não eram pessoas mortas, mas representações de pessoas que alguém pretendia neutralizar.

O feitiço que sobreviveu aos inimigos

Uma das figuras está hoje catalogada no Metropolitan Museum of Art sob o número 33.1.114. Mede sete centímetros de altura e conserva a aparência rudimentar das demais peças do conjunto.

A tinta vermelha das inscrições desbotou com o tempo. A identidade exata dos responsáveis pelo depósito permanece desconhecida.

O que sobreviveu foi a evidência de uma tentativa de agir sobre pessoas ausentes por meio de seus nomes e imagens.

Quase quatro mil anos depois, não sabemos o destino daqueles que foram considerados inimigos.

Mas os objetos preparados contra eles chegaram até nós.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se: As figuras foram descobertas em Lisht, perto da tumba de Senusretankh. Eram feitas de barro cru, algumas traziam nomes de inimigos em tinta vermelha e parte delas estava associada a uma pequena caixa em forma de caixão.

Supõe-se: As peças foram depositadas como parte de ritos de execração, possivelmente com a intenção de atingir simbolicamente os inimigos identificados.

Perdeu-se: Não conhecemos os responsáveis pelo depósito, a identidade precisa das pessoas mencionadas nem a sequência completa das cerimônias.

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