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ARQUIVO · FORMAS DO SAGRADO

O FATO QUE SE CONTA

O maior retrato do cotidiano medieval no Mediterrâneo existe porque uma regra religiosa proibia destruir papéis com o nome de Deus. Cartas, receitas e listas de compras foram parar num depósito de sinagoga e ficaram lá por quase mil anos.

No teto da sinagoga Ben Ezra, em Fustat, no Cairo antigo, havia um cômodo sem porta. Para entrar, era preciso subir uma escada e passar por um buraco na parede. Lá dentro, durante quase mil anos, a comunidade judaica da cidade depositou seus papéis gastos. Não por desleixo. Por dever.

A regra vem do Talmude: é proibido destruir qualquer escrito que traga o nome de Deus. A interdição deriva de um versículo do Deuteronômio que condena a destruição dos altares conquistados e acrescenta: "Não farás o mesmo ao Senhor teu Deus." Os sábios talmúdicos estenderam essa proibição ao nome escrito. Apagá-lo ou queimá-lo é uma transgressão grave. O caminho correto é o sheimot (pronuncia-se "shei-mót"), a guarda reverente dos papéis até o sepultamento ritual em cemitério. O lugar onde eles esperam é a geniza (do hebraico, "esconderijo").

A prática era comum entre comunidades judaicas do Mediterrâneo. O que diferenciou Fustat foi que o sepultamento nunca veio. A geniza do Ben Ezra encheu, continuou enchendo, e ninguém a esvaziou por quase dez séculos.

O que foi parar lá dentro

O costume tinha uma consequência imprevisível: como cartas e contratos frequentemente abriam com uma invocação divina, eles também precisavam ser guardados. Não eram textos sagrados. Eram papéis de negócio, bilhetes entre amigos, recibos de aluguel. Mas carregavam o nome e, portanto, não podiam ser descartados.

O resultado foi que a geniza absorveu a vida inteira de uma comunidade. Lá foram parar contratos de casamento e de divórcio, testamentos, listas de compras, receitas médicas e correspondências entre mercadores de Alexandria, Palermo e Aden. Foram parar também folhas de exercício de crianças aprendendo o alfabeto hebraico e a última carta de um irmão antes de morrer na rota da Índia.

Nenhum desses papéis foi guardado para preservar a história. Foram depositados ali porque jogar fora era proibido. É por isso que o acervo é tão valioso: ele não passa pela seleção consciente de quem organiza um arquivo. É a vida sem edição.

O pesquisador e o buraco na parede

A geniza do Ben Ezra não era um segredo. Viajantes europeus já tinham ouvido falar dela desde meados do século XIX. Em 1889, uma reforma na sinagoga revelou o cômodo e parte do material foi espalhada pelo pátio por semanas, misturada ao entulho da obra.

Foi nessa dispersão que os primeiros fragmentos chegaram ao mercado de antiguidades do Cairo. Em 1896, as irmãs escocesas Agnes Smith Lewis e Margaret Dunlop Gibson trouxeram alguns desses papéis para Cambridge e os mostraram a Solomon Schechter, estudioso de literatura rabínica. Schechter identificou um fragmento como parte do livro de Ben Sirá, texto do século II antes de Cristo que se acreditava perdido em hebraico desde o século X.

Schechter foi ao Cairo em busca do restante. Com permissão da comunidade local, retirou cerca de 193 mil fragmentos e os levou para Cambridge. Quando perguntado o que havia escolhido levar, teria dito: "Escolhi tudo."

Mercadores, médicos, crianças

O pesquisador que mais fez para compreender o acervo foi o historiador Shelomo Dov Goitein, que dedicou os últimos trinta anos de sua vida à geniza. O resultado foi A Mediterranean Society, obra em seis volumes que revelou mercadores judeus negociando contratos entre a Andaluzia e o Iêmen, estudiosos debatendo filosofia em árabe e hebraico, e mulheres conduzindo disputas legais por conta própria.

Os documentos mostram uma sociedade intensamente conectada. Os mercadores operavam pelo Mediterrâneo e pelo Oceano Índico com base em confiança pessoal. Escreviam cartas descrevendo preços, naufrágios e desentendimentos com sócios. Um comerciante de Fustat podia manter correspondência com parceiros no Marrocos, na Sicília e na Pérsia ao mesmo tempo. Tudo isso ficou guardado no teto da sinagoga.

Entre os fragmentos há uma prescrição médica, o recibo de aluguel de uma loja e um esboço de cavaleiro a cavalo rabiscado numa margem. A geniza não distinguia o sagrado do banal.

O que restou, o que se perdeu

A dispersão acelerou entre 1889 e 1892, quando o teto da sinagoga desabou. Um relato anônimo registrou que as páginas foram "misturadas a montes de lixo, enterradas sob o solo da sinagoga e transferidas ao cemitério próximo a al-Basatin" antes de voltarem ao cômodo reconstruído.

Schechter não foi o único a retirar material. Estima-se que entre 25% e 40% do total tenha terminado em cerca de 70 instituições ao redor do mundo, dependendo de quem faz a conta.

Hoje os fragmentos estão em mais de sessenta bibliotecas, de Cambridge a Princeton, de São Petersburgo à Hungria. Projetos de digitalização aproximam coleções fisicamente separadas há mais de um século. Alguns fragmentos que formavam uma única folha de contrato estão hoje em dois países diferentes. O trabalho de juntar as partes continua.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que a geniza do Ben Ezra acumulou fragmentos por cerca de mil anos, que Solomon Schechter retirou cerca de 193 mil deles em 1896 e 1897, e que o acervo está hoje dividido entre mais de sessenta bibliotecas ao redor do mundo.

Supõe-se que a geniza tenha permanecido sem esvaziamento por razões práticas além da reverência: o cemitério onde os papéis deveriam ser sepultados ficava a alguma distância, e o custo do transporte periódico pode ter contribuído para o acúmulo. É uma hipótese plausível, mas não documentada.

Perdeu-se a conta de quanto saiu antes e durante a reforma de 1889, quando o teto desabou e os fragmentos ficaram no pátio por semanas. Parte foi ao cemitério, parte ao mercado de antiguidades, parte a coleções de paradeiro desconhecido. O total nunca será conhecido.

ARCANA HISTÓRIA

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