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ARQUIVO 021

O FATO QUE SE CONTA

Muito antes de plantar trigo, caçadores-coletores no sul da atual Turquia ergueram colunas de pedra de mais de cinco metros, cobertas de relevos de animais. Göbekli Tepe é a arquitetura monumental mais antiga que se conhece, sete mil anos mais velha que Stonehenge.

Num alto da atual Turquia, perto de Şanlıurfa, gente que ainda não plantava trigo ergueu colunas de calcário de cinco metros e várias toneladas. Talhadas em T e postas em círculos, trazem relevos de raposas, cobras e abutres. Quem as levantou não tinha cerâmica nem cidade e não cultivava nada.

O sítio se chama Göbekli Tepe, "colina da barriga" em turco. As camadas mais antigas datam de cerca de 9600 antes de Cristo. É a arquitetura monumental mais antiga conhecida, sete mil anos mais velha que Stonehenge.

Aí está o que desmontou uma certeza. A sequência que parecia natural dizia: primeiro a agricultura, depois a aldeia, a cidade e, por fim, o templo. Göbekli Tepe põe o esforço monumental antes de tudo isso.

Escavou-se pouco, talvez um vigésimo do total. O resto segue sob a terra, e muito do que se diz sobre ele segue em disputa, a começar pela palavra que abre quase todo texto sobre ele: templo.

A colina que passou por cemitério

Em 1963, uma equipe das universidades de Istambul e de Chicago viu lajes quebradas na colina, achou que era um cemitério medieval e seguiu adiante. Ficou trinta anos parado.

Em 1994, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt foi conferir. Viu o que ninguém tinha visto: as lajes eram topos de pilares imensos, cravados no chão.

O que surgiu foram recintos ovais, cercados por muros baixos de pedra seca. No centro de cada um, dois pilares maiores se erguem paralelos, rodeados por menores junto à parede.

Muitos pilares são lisos. Outros trazem relevos esculpidos na pedra: raposas, cobras, javalis, abutres, escorpiões. Todos selvagens, nenhum doméstico, o que combina com um povo que vivia da caça.

Os dois pilares centrais não são só suporte. Têm braços nas laterais, mãos voltadas para a frente e, às vezes, roupa. São figuras antropomórficas, de forma humana ainda que sem rosto: duas presenças de pedra encarando quem entra.

Primeiro o santuário, depois a cidade

Schmidt resumiu sua leitura numa frase que virou lema: primeiro veio o templo, depois a cidade. Para ele, era um santuário ritual de caçadores-coletores, não uma aldeia.

Erguer um recinto desses exigia reunir muita gente e alimentá-la durante a obra. Manter tanta gente unida, diz a hipótese, teria empurrado o grupo para o cultivo, e não o contrário.

A ideia mexeu com uma base do estudo do Neolítico, quando nossa espécie domesticou plantas e animais. A tese clássica via a fé monumental como luxo de sociedades já sedentárias. Göbekli Tepe sugeria o contrário.

Ossos humanos apareceram no entulho, alguns com marcas de corte, e parte dos pesquisadores fala em tratamento ritual dos mortos. O que se fazia ali, porém, nenhuma escrita registrou.

Templo, casa, ou as duas coisas

A palavra templo, que deu fama ao sítio, é hoje a mais contestada. Depois da morte de Schmidt, em 2014, a escavação passou a Lee Clare, e o quadro mudou.

As novas frentes acharam estruturas menores com lareiras, pedras de moer e sinais de processamento de cereais silvestres. Viram também cortes na rocha que podem ter sido cisternas de água da chuva. Se havia água e vida doméstica, talvez não fosse só peregrinação.

O arqueólogo E. B. Banning foi além. Ele lembra que separar o sagrado do comum é hábito moderno, e que muitos povos misturam os dois sob o mesmo teto. Os recintos podiam ser moradia e culto ao mesmo tempo.

Schmidt achava que cada círculo era enterrado de propósito, e que o aterro preservou tudo. Clare e Kinzel veem outra chance: o enchimento pode ser entulho de desabamento, de terremotos e reformas.

Nenhum lado nega os fatos do outro. Os recintos são extraordinários, sirvam ao que servirem. O que a discussão dissolveu foi a oposição limpa entre templo e aldeia, boa de manchete e frágil diante da terra escavada.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que caçadores-coletores ergueram os recintos entre cerca de 9600 e 8000 antes de Cristo, antes da agricultura, da cerâmica e das cidades, e que apenas uma pequena fração do sítio foi escavada até agora.

Supõe-se que os círculos tenham servido a algum tipo de rito, mas cresce a evidência de vida doméstica no mesmo local, e ainda se discute se o entulho que os cobriu foi enterro proposital ou fruto de desabamento.

Perdeu-se o sentido dos relevos e o que exatamente se fazia entre os pilares. Sem escrita, a mitologia e os gestos daquele povo não deixaram registro que hoje se possa ler.

LIVRO RECOMENDADO

O despertar de tudo: Uma nova história da humanidade, de David Graeber e David Wengrow

O motivo da recomendação: É o livro que leva a discussão desta edição às últimas consequências. Um antropólogo e um arqueólogo usam Göbekli Tepe, entre outros casos, para questionar a sequência agricultura, cidade, Estado que a escola ainda ensina como natural. Rigoroso, polêmico e escrito para o leitor comum, casa com o gosto de quem quer o fascínio sem abrir mão do argumento.

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