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ARQUIVO 016

O FATO QUE SE CONTA

No Egito de Ramessés III, os operários que abriam os túmulos do Vale dos Reis cruzaram os portões da necrópole gritando que estavam com fome. Foi a primeira greve registrada da história, e o motivo foi o atraso no pagamento, feito em grão.

No ano 29 do reinado de Ramessés III, por volta de 1157 antes da era comum, uma equipe de trabalhadores cruzou os postos de guarda da necrópole de Tebas gritando: estamos com fome. Havia dezoito dias que não recebiam a ração de grão do mês. Em vez de voltar ao serviço, sentaram-se atrás do templo funerário de Tutmés III e não saíram.

Eram os operários que escavavam e decoravam os túmulos dos faraós no Vale dos Reis. Não eram escravos. Eram artesãos especializados, muitos capazes de ler e escrever, e o grão que faltou era o pagamento que sustentava suas famílias.

Quem registrou a cena foi Amennakht, o escriba da vila. Ele escreveu em hierático, a forma cursiva da escrita egípcia. O documento sobreviveu e está hoje no Museu Egípcio de Turim, catalogado como Papiro 1880.

É o registro mais antigo que se conhece de uma greve. E desmancha a ideia de que os monumentos do Egito foram erguidos a chicote.

A vila chamada Sede da Verdade

A oeste de Tebas existia uma vila feita para abrigar os operários da necrópole real. Eles a chamavam de Set Maat, a Sede da Verdade. Funcionou por quase quatro séculos, ao longo das 18ª, 19ª e 20ª dinastias do Novo Império.

Não eram mão de obra qualquer. Formavam uma equipe fechada de pedreiros, escultores, desenhistas e pintores, encarregada da tarefa mais secreta do reino: abrir e decorar o túmulo do faraó. Recebiam por isso rações de trigo e cevada, além de peixe e óleo.

Aqui vale corrigir uma ideia difundida. A imagem do escravo sob o açoite erguendo os monumentos egípcios vem, em boa parte, do cinema. As pirâmides são bem mais antigas, do Império Antigo, e também foram obra de trabalhadores pagos pelo Estado, não de cativos.

No Vale dos Reis, a prova é ainda mais clara. Os operários de Set Maat eram pagos. E quando o pagamento é o próprio sustento, atrasá-lo não é um detalhe de contabilidade. É fome.

Dezoito dias sem ração

O reinado de Ramessés III, segundo faraó da 20ª dinastia, foi o último grande reinado do Novo Império. Por fora, o Egito ainda repelia os Povos do Mar, invasores vindos do Mediterrâneo oriental. Por dentro, o preço do grão subia e a máquina que distribuía as rações começou a falhar.

Em Set Maat, o atraso virou rotina antes de virar crise. Amennakht foi ao templo de Horemheb buscar 46 sacos de trigo emmer, uma variedade antiga de trigo, para conter a revolta. Os operários aceitaram, ainda que fosse menos do que lhes deviam, e voltaram ao trabalho.

Então, no dia 10 do segundo mês, a equipe passou pelos postos de guarda e não voltou. Dias depois, foi para o templo de Ramessés II, o Ramesseum, e em seguida para o de Seti I. Ocupar os templos de culto dos faraós antigos era pressão calculada.

Os capatazes mandaram que voltassem. Os operários responderam que estavam ali por causa da fome e da sede, que lhes faltavam óleo, peixe e verdura, e que queriam levar a queixa ao faraó e ao vizir, a mais alta autoridade abaixo do rei. Era uma paralisação com pauta.

O padrão do papiro é revelador. A greve parava quando um pagamento, mesmo parcial, chegava, e recomeçava assim que os atrasos voltavam a se acumular. Não foi um levante único, mas uma sequência deles.

O que ficou nas lascas de calcário

A greve é só uma parte do que Set Maat deixou. A vila legou milhares de óstracos, lascas de calcário e cacos de cerâmica que serviam de papel de rascunho, bem mais baratos que o papiro. Neles ficaram contas, cartas e listas de presença.

Uma dessas listas, também em Turim, registra as faltas da equipe ao longo de 280 dias. É anterior à greve, do reinado de Ramessés II, na 19ª dinastia, mas vem da mesma comunidade e do mesmo hábito de anotar tudo. Os motivos das ausências têm uma humanidade que atravessa os séculos.

Um faltou porque estava fabricando cerveja, bebida básica da dieta egípcia. Outro, porque a esposa estava menstruada e ele precisou assumir a casa. Houve quem faltasse para embalsamar um irmão e um tal Seba, picado por um escorpião.

O papiro guardou o começo e o meio dessa greve, mas não o fim. Sabemos que pararam e que foram atendidos ao menos em parte. O desfecho se perdeu. Ficou a prova de que, três mil anos atrás, quem construía a eternidade dos faraós também passava fome e sabia dizer não.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que a greve ocorreu no ano 29 de Ramessés III, que os operários pararam por causa do atraso nas rações de grão e que ocuparam templos funerários para pressionar as autoridades. O Papiro de Turim guarda as datas, as falas e as idas e vindas dos oficiais.

Supõe-se que a crise nasceu do enfraquecimento econômico do fim do Novo Império, com inflação do grão, celeiros vazios e desgaste após as guerras contra os Povos do Mar. Parte dos estudiosos aponta também corrupção na cadeia que distribuía as rações.

Perdeu-se o desfecho. O papiro anota as paradas e as promessas, mas não conta como o conflito terminou de fato, nem se as exigências foram enfim atendidas por inteiro.

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