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ARQUIVO 008

Numa noite de 1669, no porão de uma casa em Hamburgo, uma retorta ficou vermelha de tão quente. Retorta era o vaso de vidro curvo usado para destilar. De repente ela se encheu de vapores luminosos. Um líquido começou a pingar do bico e se incendiou ao encostar no ar.

O dono do porão recolheu o que pingava num pote com água e tampou. O líquido endureceu numa massa branca e cerosa que seguiu brilhando sozinha, com luz verde pálida, sem chama e sem calor. Não se apagava e não precisava ser recarregada no sol.

Ele se chamava Hennig Brand e procurava ouro. Achou o elemento 15 da tabela periódica, que ninguém sabia que existia, no fundo de uma panela de urina humana fervida.

O líquido dourado

A alquimia do século XVII não era passatempo de místicos. Era alquimia operativa: forno, vidraria, balança e receita anotada. Tinha um objetivo declarado, a pedra filosofal, a substância que transformaria metais comuns em ouro. Brand acreditava nela como um engenheiro acredita num projeto.

E acreditava numa pista. A urina é dourada. Para a lógica alquímica, semelhança de aparência indicava parentesco de natureza, e o que fosse dourado podia guardar o princípio do ouro. Havia ainda uma vantagem prática: urina é abundante e não custa nada.

Brand também não improvisou. Tinha lido, num livro de receitas químicas de 1630, um procedimento que prometia converter metais comuns em prata usando alúmen, salitre e urina concentrada. A receita não funcionava. Serviu de ponto de partida.

Quem ele era, sabemos mal. Foi oficial subalterno na Guerra dos Trinta Anos, assinava como doutor sem ter diploma e não lia latim. Casou duas vezes com mulheres ricas e gastou o dinheiro das duas no porão.

Dentro da retorta

O procedimento era longo e fedia. Deixar a urina descansar até apodrecer. Ferver até virar xarope grosso. Aquecer, separar o óleo vermelho que subia, descartar a camada salgada do fundo, devolver o óleo à massa preta restante e aquecer aquilo com força por dezesseis horas. No fim, fumaça branca, depois óleo, depois o fósforo.

A química que Brand executou sem saber é esta: a urina carrega fosfatos, sais em que o fósforo está preso ao oxigênio. Sob calor muito alto, o carbono da matéria orgânica rouba esse oxigênio e o fósforo se solta puro, sai como vapor e condensa. É a mesma reação usada hoje na indústria, com rocha fosfática, coque e fornos elétricos.

Brand desperdiçou quase tudo. A camada salgada que ele descartava era justamente onde estava a maior parte do fosfato. De um volume enorme de urina tirou cerca de 120 gramas de fósforo, uma fração do que continha.

O que sobrou é o fósforo branco. Ele brilha porque reage devagar com o oxigênio do ar, pega fogo sozinho perto da temperatura do corpo humano e até hoje é guardado submerso em água.

Vale corrigir a versão popular. Não foi sorte de uma noite. Brand testou a urina em centenas de combinações antes de chegar ali. E a etapa de deixar o líquido apodrecer por semanas, que ele julgava essencial, foi depois demonstrada como dispensável: urina fresca dá o mesmo resultado.

O preço do segredo

Brand guardou o processo por cerca de seis anos. Depois vendeu a receita por 200 táleres, moeda de prata alemã, ao comerciante Johann Daniel Kraft, de Dresden. Kraft saiu em turnê pelas cortes da Europa exibindo a luz fria, chegou a Londres em 1677 e mostrou o efeito ao rei Carlos II.

O resto foi disputa. Johann Kunckel, boticário da corte prussiana, reproduziu o processo, reivindicou a descoberta para si e por mais de um século foi ele quem levou o crédito. Robert Boyle chegou ao método por conta própria e depositou a receita lacrada na Royal Society em 1680, para ser aberta só depois da sua morte. Um antigo assistente de Boyle montou fábrica e dominou o mercado europeu de fósforo por cem anos.

Brand ficou com o troco. Leibniz, o matemático, procurou-o, conseguiu-lhe uma pensão de um duque alemão e ainda esperava que o fósforo abrisse caminho para a pedra filosofal. Não abriu. Brand morreu pobre em data que as fontes não fixam.

Uma ressalva, porque as fontes divergem. Muitos manuais chamam o fósforo de primeiro elemento químico com descobridor conhecido. Outros lembram que Alberto Magno já isolara o arsênio por volta de 1250. O que ninguém disputa é o caminho: uma receita errada, seguida com rigor por alguém que buscava outra coisa, colocou um elemento novo dentro da tabela periódica.

LIVRO RECOMENDADO

A colher que desaparece: e outras histórias reais de loucura, amor e morte a partir dos elementos químicos, de Sam Kean

O motivo da recomendação: o livro faz exatamente o que esta edição faz, só que com a tabela periódica inteira. Kean vai atrás da história humana por trás de cada elemento, com o mesmo apetite por episódio bem apurado e sem apelo ao espetáculo. Quem gostou de Brand vai encontrar ali mais quarenta Brands.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que Hennig Brand isolou o fósforo em Hamburgo por volta de 1669, a partir do resíduo de urina fervida, e que depois vendeu o processo por 200 táleres. A receita, em suas etapas gerais, chegou até nós por quem a comprou.

Supõe-se o volume. Os relatos falam em cerca de 5.700 litros de urina, outros em 4.500, outros ainda em cinquenta ou sessenta baldes por operação. Nenhum desses números vem de um registro do próprio Brand.

Perdeu-se o caderno. Brand não deixou descrição escrita do que fez, nem anotação de laboratório, nem carta que fixe a data exata. Nem o ano da sua morte é certo: as fontes oscilam entre 1692 e 1710.

O FATO QUE SE CONTA

O primeiro elemento químico com descobridor conhecido não veio de uma mina. Veio do fundo de uma panela de urina humana fervida, em Hamburgo, em 1669, por um alquimista que procurava ouro, nunca o achou e vendeu o segredo por 200 moedas de prata.

ARCANA HISTÓRIA

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