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O FATO QUE SE CONTA

O manuscrito Sloane MS 3188 preserva registros de conversas que John Dee acreditava manter com anjos. No século XVII, Elias Ashmole relatou que parte dos papéis encontrados com esses escritos havia sido usada por uma empregada para forrar recipientes de tortas.

Uma empregada doméstica teria usado páginas de um manuscrito sobre conversas com anjos para forrar recipientes de tortas. Quando o destino daqueles papéis veio à tona, parte já havia desaparecido.

A história foi registrada no século XVII por Elias Ashmole, antiquário inglês que recebeu os documentos e procurou preservar o que restava. Sua explicação para a perda aparece nas primeiras folhas de um volume que hoje pertence à British Library, em Londres.

O manuscrito é conhecido como Sloane MS 3188. Nele estão registros de experiências realizadas entre 22 de dezembro de 1581 e 30 de maio de 1583 por John Dee, um dos estudiosos mais conhecidos da Inglaterra elisabetana.

Para compreender como aqueles escritos chegaram a uma cozinha, é preciso voltar ao período em que Dee acreditava conversar com inteligências espirituais.

O matemático que procurava os anjos

John Dee não era um personagem marginal no mundo intelectual de sua época. Nascido em 1527, estudou em Cambridge, dedicou-se à matemática, à astronomia e à astrologia e manteve relações com a corte de Elizabeth I.

Seu interesse pelo conhecimento também alcançava questões religiosas e práticas que hoje seriam classificadas como magia. Dee acreditava que existiam verdades sobre a natureza e a criação que poderiam ser reveladas por intermédio dos anjos.

Em dezembro de 1581, começou a registrar uma série de experiências destinadas a estabelecer esse contato.

O procedimento dependia de pessoas que afirmavam enxergar imagens ou perceber mensagens por meio de um cristal. Dee formulava perguntas e anotava as respostas que seus colaboradores diziam receber.

Um dos primeiros participantes foi Barnabas Saul. Em 1582, Edward Kelley passou a desempenhar um papel fundamental nessas experiências.

Os registros apresentam diálogos atribuídos a entidades espirituais, instruções, nomes angélicos e símbolos. O conteúdo não se limitava a previsões pessoais. Dee procurava respostas sobre religião, natureza e acontecimentos futuros.

Para ele, aquelas comunicações faziam parte de uma investigação séria. A historiadora Deborah Harkness observa que as conversações angelicais estavam relacionadas aos interesses científicos e religiosos que já ocupavam o estudioso.

Isso não significa que as mensagens tenham origem sobrenatural demonstrada. O que os documentos preservam são as experiências conforme registradas por Dee e relatadas por seus colaboradores.

A gaveta escondida no baú

Depois da morte de Dee, em 1608 ou 1609, seus escritos tiveram destinos diferentes.

A história de um conjunto desses documentos foi reconstruída por Elias Ashmole, que os recebeu em 1672.

Segundo seu relato, um baú de madeira de cedro havia pertencido ao cirurgião John Woodall. Posteriormente, foi adquirido por um casal identificado como senhor e senhora Jones, de Londres.

O baú permaneceu na residência durante anos. Por volta de 1662, quando o casal o movimentou, percebeu que havia alguma coisa solta em seu interior.

Uma inspeção revelou uma gaveta escondida.

Lá estavam vários manuscritos, papéis e uma pequena caixa contendo contas de madeira de oliveira e uma cruz do mesmo material.

Os proprietários não compreenderam a importância dos escritos. De acordo com Ashmole, essa falta de interesse permitiu que uma empregada utilizasse aproximadamente metade dos papéis encontrados para colocar sob tortas e outros usos domésticos.

Não sabemos exatamente quais folhas foram consumidas nessa atividade. Tampouco é possível determinar quanto do material perdido pertencia especificamente ao atual Sloane MS 3188.

Mas o dano não passou despercebido. Ao descobrirem o que estava acontecendo, os proprietários passaram a guardar melhor os documentos restantes.

Os papéis que escaparam do incêndio

O destino dos manuscritos ainda reservava outra ameaça.

Em setembro de 1666, o Grande Incêndio de Londres destruiu milhares de construções. O baú que guardara os papéis de Dee também foi consumido pelas chamas.

Os manuscritos, porém, escaparam.

Ashmole relata que a proprietária conseguiu retirar os documentos e transportá-los, juntamente com outros pertences, para Moorfields, uma região ao norte da cidade.

Anos depois, após um novo casamento, os escritos chegaram às mãos do antiquário.

Ashmole reconheceu seu valor e produziu uma cópia cuidadosa de parte do material. Essa transcrição sobrevive como Sloane MS 3677.

O manuscrito original percorreu outras coleções até integrar o acervo associado a Hans Sloane, posteriormente incorporado ao British Museum e hoje conservado pela British Library.

O catálogo da instituição reconhece expressamente a ausência de folhas e registra a explicação de Ashmole sobre seu aproveitamento na cozinha.

O que restou das conversas

O Sloane MS 3188 conserva cinco livros de registros angelicais de Dee. O volume também contém a introdução de Ashmole e anotações cifradas de William Shippen.

Essas páginas permitem acompanhar parte das tentativas de Dee de compreender mensagens que atribuía aos anjos. São testemunhos de uma investigação espiritual conduzida por alguém que também dedicava sua vida à matemática e à observação da natureza.

Não sabemos se as páginas utilizadas na cozinha continham mensagens inéditas, símbolos ou simples anotações. Seu conteúdo não pode ser reconstruído apenas pelo relato de Ashmole.

Existe, entretanto, uma ironia documental difícil de ignorar.

Os escritos que John Dee produziu para conservar aquilo que considerava comunicações com seres celestiais sobreviveram ao Grande Incêndio de Londres. Algumas folhas, segundo o testemunho de quem recebeu o acervo, não sobreviveram à preparação de tortas.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se: John Dee registrou experiências angelicais entre 1581 e 1583. Parte desses escritos permanece no manuscrito Sloane MS 3188, conservado pela British Library, que confirma a ausência de folhas.

Supõe-se: O reaproveitamento doméstico descrito por Elias Ashmole pode explicar parte das perdas. Seu testemunho foi registrado décadas depois da descoberta dos papéis, sem identificação individual das folhas destruídas.

Perdeu-se: O conteúdo exato dos documentos utilizados na cozinha, sua quantidade precisa e a possibilidade de determinar quais mensagens ou anotações desapareceram nessa ocasião.

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