ARQUIVO 001

Em 1639, um alquimista de Praga chamado Georg Baresch escreveu para Roma pedindo socorro. Tinha em casa um livro que não conseguia ler. Chamou o objeto de esfinge e reclamou que ele ocupava espaço inutilmente na sua biblioteca havia anos. O destinatário era Athanasius Kircher, jesuíta, a maior autoridade da Europa em línguas obscuras, um sujeito que anunciara ao mundo ter decifrado os hieróglifos egípcios. Kircher havia errado feio nessa história, mas isso é assunto para outra edição. Baresch enviou cópias de algumas páginas. O jesuíta se interessou, tentou comprar o livro, não conseguiu.
Passaram-se quase quatro séculos. O livro continua fechado.
O objeto
Ele existe, está catalogado e qualquer pessoa pode vê-lo. É o MS 408 da Biblioteca Beinecke, em Yale, digitalizado página por página.
São cerca de 234 páginas de pergaminho, a pele animal raspada e tratada que servia de papel na Europa medieval. Faltam folhas. Em 2009, quatro amostras foram datadas por carbono-14 na Universidade do Arizona. O resultado foi consistente: o pergaminho é do início do século XV, entre 1404 e 1438, com 95% de confiança. Isso elimina os candidatos favoritos da imaginação popular, como Roger Bacon, morto em 1292. Tintas e pigmentos analisados também batem com a Europa daquele período.
Uma ressalva que raramente aparece nas manchetes: o carbono data a pele, não a escrita. Alguém poderia, em tese, ter escrito num pergaminho velho. Não há indício disso, e a caligrafia combina com o século XV. Mas a possibilidade não está formalmente morta.
Dentro, cerca de 38 mil palavras e um mundo estranho. Plantas com raízes e folhas detalhadas que não correspondem a nenhuma espécie conhecida. Diagramas circulares com sóis, estrelas e símbolos do zodíaco. Dezenas de mulheres nuas em banheiras verdes ligadas por canos. Uma folha que se desdobra numa roseta enorme. E, cobrindo tudo, uma escrita corrida, elegante, da esquerda para a direita, sem hesitação e quase sem rasuras. Quem escreveu aquilo não inventava conforme escrevia. Copiava, ou compunha com fluência.
Quem já fracassou
A lista é constrangedora. William Friedman, o criptógrafo que liderou a equipe americana que quebrou a máquina diplomática japonesa apelidada de Purple, passou décadas no Voynich, montou grupos de estudo com colegas militares e desistiu. Sua conclusão final foi uma aposta modesta: talvez fosse uma tentativa precoce de língua artificial. Elizebeth Friedman, criptoanalista tão boa quanto o marido, também nada. John Tiltman, do serviço britânico, o mesmo.
Depois vieram os computadores e os algoritmos de aprendizado de máquina. O texto resistiu a todos. O que a análise conseguiu foi mapear o terreno. Nos anos 1970, Prescott Currier percebeu que o livro não é homogêneo: existem ao menos duas variedades de escrita, que ele chamou de A e B, com vocabulários diferentes. Em 2020, a paleógrafa Lisa Fagin Davis identificou cinco mãos distintas no manuscrito. Aquilo não saiu de uma mente solitária num sótão. Saiu de um grupo de pessoas que dominava o mesmo sistema.
Três portas
Três hipóteses disputam o campo a sério. Cada uma tem evidência a favor e um problema que não resolve.
A primeira é a cifra. O texto seria latim ou italiano codificado. A objeção clássica é que as cifras conhecidas da época já foram testadas e nenhuma bate. Em novembro de 2025, na revista Cryptologia, Michael Greshko propôs a cifra Naibbe, batizada com um nome italiano do século XIV para jogo de cartas. Nela, cada letra do texto original vira vários blocos diferentes de símbolos, sorteados com cartas e dados. Feita à mão, ela reproduz um número impressionante das propriedades estatísticas do Voynich. O próprio autor faz questão de dizer que aquilo é prova de conceito, não solução. Ninguém leu uma frase do manuscrito com ela.
A segunda é a língua. O texto seria um idioma pouco documentado, ou uma língua construída, escrito num alfabeto inventado. Claire Bowern e Luke Lindemann, linguistas de Yale, defenderam essa leitura em 2021: as palavras têm estrutura interna parecida com morfologia, cada seção do livro tem seu vocabulário próprio, e a distribuição das palavras se comporta como a de um texto com conteúdo. O problema é que nenhuma língua conhecida encaixa, e a entropia condicional, medida que indica o quanto uma letra prevê a seguinte, é baixa demais. O Voynich é mais previsível do que qualquer idioma humano registrado.
A terceira é a fraude. O livro seria um objeto de luxo sem conteúdo, feito para ser vendido caro a um colecionador crédulo. Rodolfo II, imperador do Sacro Império, teria pago 600 ducados por ele, uma fortuna, segundo uma carta de 1665 que repete um boato de terceiros. Em 2004, Gordon Rugg mostrou que uma grade de Cardano, moldura vazada que seleciona trechos de uma tabela, gera palavras com aparência voynichesa. Em 2019, Torsten Timm e Andreas Schinner apresentaram um método ainda mais simples, o de copiar e alterar levemente as palavras já escritas, que um escriba executaria sem ferramenta nenhuma.
O que o número diz, e o que ele não diz
Aqui está o dado que costuma encerrar a conversa. As palavras do Voynich obedecem à lei de Zipf, o padrão que aparece em toda língua humana, no qual a palavra mais comum de um texto aparece mais ou menos o dobro de vezes que a segunda, o triplo da terceira, e assim por diante. Texto aleatório não faz isso. Rabiscar sem sentido não faz isso. É exatamente o que uma fraude não deveria produzir.
Guarde o fato, mas guarde também a rasteira. Timm e Schinner mostraram que o método de copiar e alterar levemente reproduz as duas leis de Zipf. E um experimento de 2022, que pediu a voluntários que escrevessem bobagem parecida com língua, produziu textos estatisticamente próximos de idiomas reais. A estatística humilha a hipótese de fraude ingênua. Não mata a hipótese de fraude sofisticada. As fontes divergem, e divergem com dados na mão.
Onde a luz não chega
O QUE SABEMOS, O QUE SE PERDEU
Sabemos quando o pergaminho foi feito, sabemos que ao menos cinco pessoas escreveram nele, sabemos que o texto obedece a regras internas rígidas. Supomos, por detalhes de desenho como as ameias em rabo de andorinha de um castelo, que o livro nasceu no norte da Itália ou na Europa central.
Não sabemos quem escreveu. Não sabemos em que língua. Não sabemos se existe alguma mensagem a ser lida.
Seiscentos anos, e a esfinge de Baresch continua sentada, calada, ocupando espaço.
O FATO QUE SE CONTA
A escrita do Voynich obedece aos padrões estatísticos de uma língua real, que é exatamente o que uma fraude não deveria produzir. O detalhe incômodo: métodos de fraude simples o bastante para um escriba do século XV também produzem esses mesmos padrões.
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