O FATO QUE SE CONTA

O Papiro Chester Beatty III reuniu previsões sobre sonhos, um poema sobre Kadesh e uma carta ao vizir. Transmitido entre proprietários de Deir el-Medina, conserva também nomes que ajudam a reconstruir a trajetória de uma família de escribas.

Sonhar com a própria cama em chamas era um mau presságio. Segundo um manuscrito egípcio de mais de 3.200 anos, aquela imagem anunciava que o sonhador afastaria sua esposa. Mas olhar pela janela durante um sonho era um bom sinal, interpretado como a promessa de que seu pedido seria ouvido.

Essas interpretações não foram inventadas por algum autor moderno. Estão preservadas no Papiro Chester Beatty III, um documento do Antigo Egito que chegou até nós trazendo uma curiosa combinação de adivinhação, literatura e acontecimentos familiares.

O mais surpreendente é que o livro dos sonhos também guarda, no verso, uma história inteiramente diferente.

Quando a noite anunciava o futuro

Por volta de 1220 a.C., durante a XIX dinastia, um escriba cujo nome desconhecemos copiou uma extensa coleção de interpretações de sonhos.

O texto foi escrito em hierático, uma forma cursiva da escrita egípcia utilizada em documentos e composições literárias.

Cada interpretação seguia uma estrutura simples. Primeiro aparecia a situação sonhada. Depois, a indicação de que o sonho era bom ou ruim. Por último, vinha o significado atribuído àquela experiência.

A distinção também estava nas cores. Os presságios desfavoráveis eram assinalados em vermelho, uma cor associada, naquele contexto, ao perigo e à adversidade.

Algumas interpretações desafiam nossas expectativas.

Sonhar que comia carne de burro podia anunciar uma posição elevada. Ver os próprios dentes caindo, por outro lado, era associado à morte de alguém subordinado ao sonhador.

Essas associações nem sempre parecem evidentes porque parte delas dependia de jogos de palavras e referências culturais da língua egípcia.

O manuscrito não foi produzido para investigar as causas dos sonhos. Seu propósito era identificar aquilo que eles poderiam anunciar.

Para os egípcios daquela época, as experiências noturnas podiam ter uma dimensão que ultrapassava o sono. Os sonhos eram considerados possíveis meios de contato com realidades invisíveis, incluindo divindades e mortos.

O livro preserva uma dessas maneiras de procurar sentido no que acontecia durante a noite.

O escriba que aproveitou o outro lado

O papiro veio de Deir el-Medina, uma comunidade próxima à antiga Tebas, onde viviam trabalhadores especializados na construção e decoração das tumbas reais do Vale dos Reis.

Entre seus habitantes estava Qenherkhepshef, um escriba conhecido pelos documentos que deixou.

Ele não foi o autor identificado do livro dos sonhos. A escrita cuidadosa do texto original é diferente de sua caligrafia, muito mais rápida e cursiva.

Mas Qenherkhepshef teve o manuscrito em suas mãos e decidiu aproveitar o outro lado.

Ali copiou uma composição literária sobre a batalha de Kadesh, travada durante o reinado de Ramsés II contra os hititas. Também registrou uma cópia de uma carta que havia escrito ao vizir, um dos mais importantes funcionários da administração egípcia.

Assim, um mesmo rolo de papiro passou a reunir dois universos aparentemente distantes: as previsões associadas aos sonhos e uma narrativa sobre os feitos militares do faraó.

O material não foi preservado como um objeto intocado. Continuou sendo utilizado.

E sua trajetória ainda não havia terminado.

A herança de uma família

Depois de pertencer a Qenherkhepshef, o papiro passou para Khaemnun, segundo marido da jovem esposa do escriba. Posteriormente, chegou a Amennakht, filho de Khaemnun.

Os dois deixaram seus nomes no próprio manuscrito.

Essas inscrições permitiram aos pesquisadores reconstruir parte da circulação do documento. As diferenças entre as caligrafias também ajudam a distinguir o texto original das intervenções posteriores.

O livro fazia parte de um conjunto de manuscritos que circulou naquela comunidade e permaneceu ligado a uma família por gerações.

É possível imaginar que seus proprietários conhecessem as interpretações registradas. Mas não existe documentação suficiente para afirmar que tenham consultado o livro depois de um pesadelo específico, ou que acreditassem pessoalmente em cada presságio.

Essa diferença importa. O papiro comprova a existência de uma tradição de interpretação dos sonhos, não a realização de suas previsões.

O que sobreviveu ao esquecimento

Em 1930, o Papiro Chester Beatty III entrou no acervo do British Museum, em Londres, como parte de uma doação de Alfred e Edith Chester Beatty.

Hoje, o documento é conservado em quatro partes emolduradas. Seu conteúdo recebeu uma publicação especializada de Alan Gardiner em 1935 e continua sendo estudado por pesquisadores da religião e da cultura egípcias.

Não sabemos quem elaborou originalmente aquela coleção de interpretações, nem quais experiências inspiraram suas associações.

Sabemos, porém, que o manuscrito teve uma existência muito mais longa do que sua primeira finalidade.

A mesma superfície que ensinava a reconhecer sinais favoráveis e desfavoráveis acabou guardando uma batalha, uma carta administrativa e os nomes de sucessivos proprietários.

Mais de três milênios depois, o livro que pretendia revelar acontecimentos futuros tornou-se também uma testemunha inesperada do passado de uma família egípcia.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se: O Papiro Chester Beatty III contém interpretações de sonhos copiadas durante a XIX dinastia. Seu verso recebeu textos de Qenherkhepshef, e inscrições posteriores documentam sua transmissão entre proprietários.

Supõe-se: O manuscrito pode ter sido consultado para interpretar experiências noturnas, mas não existem registros que comprovem seu uso em ocasiões específicas pelos proprietários conhecidos.

Perdeu-se: A identidade do escriba responsável pela cópia original e as circunstâncias em que a coleção de interpretações foi inicialmente composta permanecem desconhecidas.

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