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ARQUIVO 023

O FATO QUE SE CONTA

Um manual cirúrgico egípcio de cerca de 1600 antes de Cristo classificava cada ferimento em três veredictos, e um deles mandava não tratar. Reconhecer o incurável por escrito, mais de mil anos antes de Hipócrates, é postura clínica, não religiosa.

Há cerca de 3.600 anos, um cirurgião egípcio encostou o dedo num crânio partido, tocou o que havia embaixo e anotou o que sentiu. A superfície do cérebro, escreveu, parecia as ondulações que se formam no cobre derretido. E algo ali dentro pulsava e tremia sob os dedos. É a descrição mais antiga do cérebro humano que chegou até nós, e está no caso número seis de um único documento.

Esse documento é o papiro Edwin Smith, o mais antigo tratado de cirurgia que sobreviveu. O nome vem do negociante americano que o comprou em Luxor, em 1862. Foi escrito em hierático, a forma cursiva da escrita egípcia, por volta de 1600 antes de Cristo, no Segundo Período Intermediário. Alguns estudiosos o situam um pouco depois, já no início do Império Novo.

O que impressiona não é a idade. É o método. São quarenta e oito casos, dispostos do alto da cabeça para baixo, do crânio ao tórax e à coluna. Cada um segue a mesma ordem, sem exceção.

E há um detalhe que nenhum outro papiro médico egípcio conhecido carrega. O texto separa os casos em três sentenças, e uma delas manda não tratar.

A ordem do corpo

Cada caso abre com um título que descreve o ferimento e onde ele fica. Depois vem o exame. O cirurgião apalpa a ferida, mede o pulso, testa se o paciente move o pescoço. Só então registra o diagnóstico, o veredicto e a conduta.

Quem lê hoje reconhece a sequência de imediato. Exame, diagnóstico, prognóstico, tratamento. É a espinha de qualquer prontuário médico moderno, montada num papiro milenar.

Os casos não são pacientes reais, e sim modelos. Cada um representa um tipo de lesão, como num manual que ensina a reconhecer o padrão.

As condutas são práticas. Fechar cortes com pontos de linho, imobilizar fraturas com talas acolchoadas, estancar sangue com carne fresca no primeiro dia, cobrir feridas com mel. A ciência confirmou depois que o mel tem ação contra bactérias.

Uma manobra chama a atenção. Para recolocar uma mandíbula deslocada, o texto descreve um gesto quase idêntico ao que a medicina de emergência ensina até hoje. O corpo humano não mudou, e algumas soluções para ele também não.

A sentença que ninguém mais escreveu

Depois do exame, cada caso recebe um de três veredictos. Uma doença que tratarei. Uma doença que combaterei. E uma doença que não se trata.

A primeira é o caso favorável. A segunda é o caso difícil, de desfecho incerto, em que o cirurgião vai tentar. A terceira é o ferimento que ele considera perdido, e diz isso por escrito.

Essa terceira sentença aparece catorze vezes no papiro, e não existe em nenhum outro tratado médico egípcio que se conhece. Escrever que não há o que fazer é uma decisão clínica. Exige separar o que a técnica alcança do que ela não alcança, e ter a honestidade de anotar a diferença.

Não tratar nem sempre queria dizer abandonar. Em casos graves, o texto ainda manda amaciar a cabeça do paciente com gordura, pingar leite nos ouvidos, mantê-lo sentado. É conforto oferecido a quem não tem cura, um cuidado que a medicina só nomearia como especialidade milhares de anos depois.

O tempero e o prato

A imagem popular da medicina egípcia é a de sacerdotes recitando encantamentos sobre o doente. O papiro Edwin Smith não confirma essa cena. Da primeira à última linha dos casos, o que há é observação.

Só que a história é mais interessante que a caricatura. No verso do mesmo rolo, escritas por outra mão, provavelmente mais tarde, estão oito fórmulas mágicas contra epidemias. O papiro de Ebers, pouco posterior, mistura remédio e encantamento sem cerimônia.

Ou seja, as duas medicinas conviveram. A que apalpava e descrevia não substituiu a que rezava. Andavam lado a lado, às vezes no mesmo pedaço de papiro. Afirmar que os egípcios do segundo milênio antes de Cristo eram cientistas seria tão falso quanto reduzi-los a feiticeiros.

O que sobra é um retrato estranho e exato. Diante de um ferimento, ao menos uma tradição egípcia olhava, media, julgava e, quando era o caso, admitia a derrota, sem chamar nenhum deus para a sala.

Há uma ironia final nisso. A mesma civilização que descreveu o cérebro com essa atenção descartava o órgão na hora de embalsamar. Puxavam-no para fora pelo nariz com um gancho e jogavam fora, enquanto guardavam o fígado, os pulmões e os intestinos. O órgão que um cirurgião anônimo foi o primeiro a nomear era, para os embalsamadores, o que menos importava.

O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU

Sabe-se que o exemplar que sobreviveu foi copiado por volta de 1600 antes de Cristo, traz quarenta e oito casos de trauma e organiza cada um por exame, diagnóstico e conduta. Nele está a primeira descrição escrita do cérebro.

Supõe-se que o texto original seja bem mais antigo, talvez do Império Antigo, pela linguagem arcaica que o copista reproduziu. James Breasted chegou a levantar o nome de Imhotep como autor, mas avisou que era pura conjectura, sem prova.

Perdeu-se o começo e o fim do rolo, o nome de quem o compôs e o total de casos que a obra completa reunia. O copista parou no meio de uma linha, e o resto se apagou.

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