Sponsored by

ARQUIVO 009

Em 1990, um turista cavalgava pelo platô de Gizé quando o cavalo tropeçou numa saliência de tijolo na areia. Era o topo de um muro. O muro fazia parte de um cemitério. E o cemitério pertencia às pessoas que ergueram as pirâmides.

O que veio à luz nas escavações desmontou, pedra por pedra, a imagem mais difundida sobre Gizé: a do escravo acorrentado, arrastando blocos sob o chicote. Essa cena nunca aconteceu. Os construtores das pirâmides não eram escravos, e existe uma vila inteira para provar isso.

As três grandes pirâmides de Gizé pertencem à IV dinastia, no Reino Antigo egípcio. Foram erguidas para os faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, por volta de 2600 a 2500 a.C.

A cidade que alimentava os construtores

A poucas centenas de metros das pirâmides, o arqueólogo Mark Lehner escava desde 1988 um assentamento que ficou conhecido como a Cidade Perdida dos Construtores. Era uma cidade planejada em malha, com dormitórios, oficinas e instalações para produzir comida em escala.

E que comida. Havia padarias que assavam pão em quantidade quase industrial, estruturas para fabricar cerveja e, sobretudo, muitos ossos de boi, ovelha e cabra. A carne abatida bastava para alimentar milhares de trabalhadores por dia, boa parte de bois jovens, a mais valorizada.

Escravo não come assim. Um Estado que sacrifica rebanhos inteiros para sustentar seus trabalhadores os trata como recurso, não como peça descartável. Os esqueletos mostram o esforço brutal e, ao lado dele, fraturas que sararam e sinais de cirurgia com sobrevivência: os feridos eram tratados.

A primeira rachadura na história do escravo vem do lixo de cozinha e dos ossos de quem trabalhou ali.

Enterrados com honra, batizados como times

O cemitério que o cavalo denunciou é a prova mais objetiva. A poucos passos do monumento que ergueram, os trabalhadores foram sepultados em túmulos de tijolo, alguns simples, outros em pequenas mastabas, as tumbas retangulares de laterais inclinadas da elite egípcia. Ninguém enterra um escravo assim, ao lado do faraó.

As sepulturas traziam oferendas, jarros com pão e cerveja, e inscrições com o nome e o cargo do morto. Diretor de artesãos. Encarregado de um dos lados da pirâmide. Escravo não tem cargo gravado na tumba.

Zahi Hawass, que escavou o cemitério, nota outro detalhe. Nenhum daqueles corpos foi mumificado, e a mumificação era privilégio da realeza. Eram trabalhadores livres, honrados o bastante para descansar à sombra da obra.

Os operários se organizavam em grupos que os egiptólogos apelidaram de gangues, e cada turma se dava um nome. Nas câmaras acima da tumba de Quéops, onde ninguém deveria olhar, eles rabiscaram em tinta vermelha o nome dos seus times. Um se chamava Amigos de Quéops. Outro, ligado à pirâmide de Miquerinos, era algo como Beberrões de Miquerinos.

O testemunho mais direto veio em 2013, quando uma missão francesa liderada por Pierre Tallet achou no porto de Uádi al-Jarf os papiros inscritos mais antigos do Egito. Um deles é o diário de um inspetor chamado Merer, que registra o trabalho de uma equipe de cerca de duzentos homens levando calcário da pedreira de Tura até Gizé nos anos finais do reinado de Quéops. Registra até as rações de pão e cerveja. É a pirâmide erguida pela mão de quem a erguia.

De onde saiu a lenda do escravo

Se a evidência é tão clara, de onde veio a lenda? A resposta reúne três responsáveis. O primeiro é o historiador grego Heródoto, que visitou o Egito no século V a.C., quando as pirâmides já tinham mais de dois mil anos, tão distantes dele quanto ele está de nós.

Sacerdotes contaram a Heródoto que cem mil homens haviam trabalhado vinte anos na obra, sob um faraó que reduzira o povo à miséria. Mas o que ele descreveu foi trabalho forçado e poder opressor, sem identificar os trabalhadores como hebreus. Os especialistas hoje consideram o número inflado e falam em torno de vinte mil pessoas.

O segundo responsável é uma leitura apressada do Êxodo. O texto bíblico descreve hebreus em trabalho forçado no Egito, fabricando tijolos e erguendo cidades de depósito. Ele não situa esse trabalho em Gizé nem identifica as pirâmides como obra dos israelitas. A ligação com as pirâmides foi costurada depois, por quem juntou duas histórias que a fonte mantinha separadas.

O terceiro é o cinema. A imagem do escravo sob o chicote ganhou força em produções de Hollywood do século XX sobre o Êxodo. É uma cena poderosa. Só não é verdadeira. O que o cavalo encontrou em 1990 conta outra história: a de um Estado capaz de alimentar, abrigar e organizar milhares de pessoas num só canteiro, por anos. Isso é administração, não crueldade. Uma coisa, porém, aquele cemitério não respondeu, e é justamente a que segue em aberto.

LIVRO RECOMENDADO

A Grande Pirâmide Revela a Verdade: a Maior Aventura Egípcia de Todos os Tempos, de Cláudio Coppola.

O motivo da recomendação: o livro trata justamente da construção da Grande Pirâmide de Quéops, situando o tema na 4ª dinastia (2613 a 2494 a.E.C.) e percorrendo a engenharia, os métodos de trabalho e a sociedade por trás da obra. Conversa direto com esta edição porque separa as descobertas arqueológicas atuais das ideias místicas surgidas no século XIX, aquelas que transformaram a pirâmide em enigma sobrenatural. É leitura em português, acessível a quem quer ir do fato à obra inteira.

O QUE SABEMOS, O QUE SE PERDEU

Sabe-se quem ergueu as pirâmides de Gizé: trabalhadores egípcios recrutados, alimentados e organizados pelo Estado, com nome, cargo e túmulo próprios. A autoria saiu do campo das lendas.

Supõe-se como os enormes blocos de calcário subiram. Concorrem várias teorias de rampa, a reta e externa, a que envolvia a pirâmide em espiral, a interna, e cada uma esbarra em problemas de inclinação, volume ou espaço. Nenhuma delas reúne consenso. Space Daily

Perdeu-se o registro do método exato. Os construtores anotaram entregas e rações, não o manual da obra. Ao contrário da autoria, já resolvida, essa parte da história segue mesmo em aberto.

O FATO QUE SE CONTA

Os construtores das pirâmides de Gizé comiam carne de boi, bebiam cerveja e foram enterrados com nome e cargo a poucos metros do monumento que ergueram. Escravo nenhum tem esse enterro. Um cemitério achado em 1990 desfez a lenda do chicote.

ARCANA HISTÓRIA

A História que você não aprendeu, contada como ela realmente foi.

ESPAÇO DO PATROCINADOR DESTA EDIÇÃO

Esta edição chega até você gratuitamente graças a quem anuncia aqui
Não esqueça das regras da newsletter para que o seu email permaneça ativo

Stop overpaying for wireless. Get a Tello plan for under $25

Unlimited everything. No contract. Just $25/mo. With Tello, you get reliable 5G coverage, zero hidden fees, and none of the bundles you never wanted.

Continue Lendo