ARQUIVO 004

Em 1697, uma menina de nove anos chamada Jane Rowth prestou depoimento diante de um tribunal itinerante inglês, os assizes, que percorriam o interior julgando crimes graves. Ela contou que, na noite em que a mãe morreu, as duas haviam despertado do primeiro sono quando homens bateram à janela e chamaram a mulher para fora. A mãe saiu com eles. Foi encontrada morta depois.
O que prendeu a atenção do historiador Roger Ekirch, três séculos mais tarde, num arquivo de Londres, não foi o crime. Foi a expressão. Primeiro sono. A menina usou aquilo como quem diz depois do jantar, sem sentir que precisava explicar. Ekirch nunca havia lido a expressão, e ela aparecia ali com a naturalidade de uma coisa óbvia.
Se existe um primeiro sono, existe um segundo.
A noite partida ao meio
Ekirch começou a procurar, e a expressão estava em toda parte. Em diários, processos judiciais, manuais de medicina, peças de teatro, poemas. Não eram menções raras. Eram centenas, e depois milhares. Hoje ele já reuniu mais de dois mil registros, em cerca de doze línguas, alguns recuando até a Grécia antiga de Homero.
O padrão era este. As pessoas se deitavam pouco depois do anoitecer e dormiam três ou quatro horas. Esse era o primeiro sono. Por volta da meia-noite despertavam sozinhas e ficavam acordadas por uma ou duas horas. Depois voltavam a dormir até o amanhecer, no segundo sono, que em certas regiões se chamava sono da manhã.
O intervalo no meio também tinha nome. Os ingleses o chamavam de the watch, a vigília. Era um pedaço da noite com função própria.
Os pesquisadores modernos batizaram esse arranjo de sono bifásico, ou sono segmentado, quer dizer, dividido em duas partes separadas por um tempo acordado. Para quem viveu assim, não havia nada a batizar. Era só dormir.
O que se fazia no escuro
E o que faziam as pessoas naquela hora, acordadas no meio da noite? Quase tudo o que se pode imaginar. Atiçavam o fogo. Conversavam com quem dividia a cama. Levantavam para visitar um vizinho. Remendavam roupa. Repassavam os sonhos ainda quentes.
Faziam sexo, e havia quem recomendasse. Um manual médico francês do século XVI aconselhava os casais a conceber não ao fim de um dia exausto, mas depois do primeiro sono, quando teriam, segundo o texto, mais prazer.
E rezavam. Alguns manuais devocionais traziam orações próprias para aquelas horas, compostas para o intervalo entre os dois sonos. A vigília no meio da madrugada era um tempo reconhecido, com usos reconhecidos, inclusive religiosos. Não era um problema a resolver. Era uma parte da noite como outra qualquer.
Quando a noite virou um bloco só
O hábito desaparece do registro escrito ao longo do século XIX, e não desaparece sozinho.
Primeiro veio a luz. A iluminação a gás nas ruas, e depois a luz elétrica dentro de casa, empurraram o fim do dia para mais tarde. Quem antes se recolhia ao escurecer passou a ter serões, cafés, vida noturna. A noite, que por séculos pertencera a ladrões e a quem não tinha escolha, virou tempo de trabalho e de convívio. O historiador Craig Koslofsky descreveu essa lenta conquista da noite pela luz.
O intervalo de vigília, apertado dos dois lados, foi encolhendo. No começo do século XIX o primeiro sono já se esticava e engolia o segundo. No fim do século, o segundo sono não passava de virar na cama por dez minutos antes de levantar. A pausa sumiu, e com ela o próprio vocabulário. Ninguém mais falava em primeiro sono porque ninguém mais tinha um.
Junto com a luz veio uma ideia nova: dormir demais era preguiça, e a noite bem aproveitada era a noite produtiva. Acordar às três da manhã deixou de ser pausa esperada e virou distúrbio com nome clínico.
O que o corpo ainda faz
Nos primeiros anos da década de 1990, o psiquiatra Thomas Wehr montou um experimento simples. Colocou voluntários num ambiente com dez horas de luz por dia e catorze de escuro, a noite longa de um inverno no norte da Europa, e deixou que dormissem à vontade.
As primeiras noites foram longas, provavelmente pagando uma dívida de sono acumulada. Mas por volta da quarta semana o sono se partiu em dois. Os voluntários dormiam um bloco, passavam de uma a três horas acordados e tranquilos, e dormiam outro. O mesmo desenho dos arquivos de Ekirch, agora dentro de gente do século XX. A melatonina, o hormônio que o escuro dispara para preparar o sono, se estendia ao longo dessa noite mais comprida.
Parecia caso encerrado. Não é.
Em 2015, uma equipe liderada pelo pesquisador do sono Jerome Siegel mediu, com sensores de pulso, o sono de três povos que ainda vivem sem eletricidade: os Hadza, da Tanzânia, os San, da Namíbia, e os Tsimané, da Bolívia. Se o sono partido fosse o estado natural da espécie, deveria aparecer ali. Não apareceu. Os três dormiam num bloco só, entre seis e sete horas por noite, sem a vigília no meio.
A diferença mais provável está no céu. Esses três povos vivem perto do Equador, onde a noite dura quase o mesmo o ano inteiro. Os europeus do sono partido viviam em latitudes altas, com invernos de noites enormes. A pausa talvez não seja uma herança de toda a espécie. Talvez seja o que o corpo faz quando a noite é longa demais para caber num sono só.
Antes de voltar a dormir
Uma última pista complica o quadro, e fala de perto ao leitor brasileiro. Ekirch encontrou o mesmo sono partido sobrevivendo até o século XX fora da Europa, entre grupos da Nigéria, da América Central e do Brasil. O costume nunca foi só europeu, e não se apagou em toda parte ao mesmo tempo.
Nada disso é receita. Russell Foster, neurocientista da Universidade de Oxford, considera a pesquisa de Ekirch valiosa e adverte que ninguém deveria se impor um sono partido de propósito, ainda mais se isso significar dormir menos no total.
Mas fica a virada. Se você acorda às três da manhã e fica encarando o teto no escuro, certo de que algo em você está quebrado, é possível que nada esteja. Por boa parte da história dos europeus anteriores à luz elétrica, aquela hora acordada não era defeito nenhum. Era a dobra no meio da noite, quando se rezava, se conversava e se vivia um pouco, antes de voltar a dormir.
O QUE SABEMOS, O QUE SE PERDEU
Sabe-se que a expressão primeiro sono e segundo sono aparece aos milhares em documentos europeus, dos processos judiciais aos manuais de devoção, e que o hábito minguou no século XIX à medida que a luz artificial esticou o dia.
Supõe-se se o sono partido era um traço natural de toda a espécie ou uma resposta às noites longas do inverno europeu. O experimento de Wehr recriou o padrão no escuro prolongado, mas povos que vivem perto do Equador, como Hadza, San e Tsimané, dormem num bloco só. Historiadores e pesquisadores do sono seguem em desacordo.
Perdeu-se a experiência vivida daquela hora acordada, e a real extensão do costume. As fontes são fragmentos, depoimentos, diários, versos, nunca diários de sono, e não permitem medir quão comum a pausa foi, nem reconstituir com precisão como e quando cada região a abandonou.
O FATO QUE SE CONTA
Por séculos, europeus dormiam em duas etapas e acordavam por volta da meia-noite sem estranhar. Aquela hora tinha até manuais com orações próprias. A insônia do meio da noite é mais nova que o velho hábito de atravessá-la desperto.
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