ARQUIVO 006

Em 14 de julho de 1551, na casa do bispo de Lincoln, no vilarejo de Buckden, um menino de quinze anos morreu. Chamava-se Henry Brandon e era duque de Suffolk.
Menos de uma hora depois morreu o irmão, Charles, de treze ou catorze anos. Nesse intervalo de sessenta minutos ele herdou o ducado e o carregou até o próprio fim. É o mandato mais curto já registrado num título nobiliárquico britânico.
Os dois haviam sido retirados de Cambridge justamente para escapar da doença que os matou. A mãe, Catherine Willoughby, adoeceu no caminho e chegou a Buckden a tempo apenas de ver o segundo filho morrer.
A doença que chegou junto com uma dinastia
O nome latino era sudor anglicus. Os ingleses diziam apenas "the sweat", o suor. Entre 1485 e 1551 os cronistas registraram cinco epidemias. Depois disso, nada.
A primeira apareceu em agosto de 1485, poucas semanas depois de Henrique Tudor derrotar Ricardo III em Bosworth e entrar em Londres. Uma hipótese antiga, ainda repetida, atribui a chegada aos mercenários estrangeiros que ele trouxe do continente para a campanha. Não existe registro anterior da doença em lugar nenhum da Europa, o que torna a suspeita plausível e indemonstrável ao mesmo tempo.
As datas dos surtos seguintes variam conforme a fonte. A maior parte da bibliografia lista 1508, 1517, 1528 e 1551. Outros autores trocam 1508 por 1506 ou 1507, e alguns contam 1528 e 1529 como episódios separados. Os registros paroquiais da época eram irregulares e os cronistas nem sempre concordavam sobre o que estavam contando.
O comportamento geográfico é o mais estranho de tudo. A doença ficou quase inteiramente confinada à Inglaterra. Chegou a Calais em 1517, mas Calais era território inglês. Em 1528 e 1529 atravessou o mar do Norte e devastou Hamburgo, Bremen, Lübeck e Copenhague. A França, do outro lado de um canal estreitíssimo e cheio de barcos, foi poupada.
O médico que fez carreira com o pânico
Quase tudo o que sabemos vem de um livro publicado em 1552 por John Caius, médico formado em Cambridge que latinizou o próprio sobrenome, Kays, depois de anos estudando na Itália.
Caius estava em Shrewsbury quando o último surto começou, em abril de 1551. Escreveu o relato em inglês corrente, e não em latim, para que qualquer pessoa alfabetizada pudesse ler. O texto é uma descrição clínica de qualidade rara para o século XVI.
Começava com uma sensação súbita de apreensão, algo entre o pressentimento e o medo. Vinham calafrios violentos, tontura, dor de cabeça, dores no pescoço, nos ombros e nos membros. Em meia hora, às vezes menos, o suor tomava o corpo inteiro. Depois vinham febre alta, sede intensa, pulso acelerado, delírio. No estágio final, uma exaustão profunda e uma vontade quase irresistível de dormir. Caius acreditava que ceder ao sono era fatal.
Em vinte e quatro horas a pessoa estava morta ou visivelmente recuperada. O cronista Edward Hall resumiu o efeito numa frase que atravessou cinco séculos: alegres no jantar, mortos na ceia.
Caius observou também que sobreviver a um ataque não protegia contra o seguinte. Suas receitas de prevenção envolviam evitar névoas nocivas e frutas podres, o que soa absurdo hoje mas era medicina de ponta em 1552. A maioria de seus pacientes morreu. Ele enriqueceu mesmo assim e financiou com esse dinheiro a reforma do próprio colégio em Cambridge, que passou a se chamar Gonville and Caius.
O avesso da peste
A peste bubônica matava mais pobres. O suor inglês fazia o contrário, e isso apavorava a corte mais do que a mortalidade em si.
As vítimas preferenciais eram adultos jovens, saudáveis, bem alimentados e ricos. Um dos apelidos populares da doença era stopgallant, algo como "freia-almofadinha", porque derrubava os jovens elegantes. Habitantes de mosteiros também morriam em número desproporcional.
Em 1528 o surto chegou à corte de Henrique VIII. O rei entrou em pânico e passou o verão trocando de residência quase diariamente. Anne Boleyn pegou a doença em Hever e sobreviveu. O pai dela sobreviveu. William Carey, marido da irmã dela, morreu em 22 de junho. Thomas Cromwell perdeu a esposa e duas filhas. O embaixador francês Jean du Bellay calculou dois mil mortos em Londres só naquele mês de junho.
A explicação mais aceita hoje para essa preferência de classe não tem nada de misteriosa. O epidemiologista Paul Hunter argumenta que os pobres, expostos desde a infância a uma carga muito maior de infecções, teriam alguma imunidade cruzada que faltava aos ricos. É uma hipótese, não um dado.
Quatro suspeitos e nenhuma prova
Em 1997, três pesquisadores britânicos publicaram no New England Journal of Medicine a proposta que dominou o debate desde então: um hantavírus, família de vírus transmitidos por roedores através de urina e fezes secas, sem contágio direto entre pessoas.
O encaixe é bom em vários pontos. Sazonalidade de verão, agrupamento geográfico, surtos que somem sozinhos. O virologista belga Paul Heyman estendeu a hipótese para explicar também a suette des Picards, o suor da Picardia, que apareceu na França em 1718 e desapareceu por volta de 1861.
O encaixe também tem furos. Os hantavírus conhecidos não provocam sudorese extrema. E o suor inglês parecia se transmitir de pessoa para pessoa, o que os hantavírus não fazem.
Em 2004 o microbiologista Edward McSweegan propôs outro culpado: o antraz, infecção causada pela bactéria Bacillus anthracis, cujos esporos resistem décadas. A Inglaterra Tudor vivia de lã bruta, material clássico de contaminação. McSweegan sugeriu exumar vítimas para testar.
Já se propôs também febre recorrente, transmitida por carrapatos e piolhos, mas ela produz uma escara escura no ponto da picada e uma erupção na pele, sinais que Caius teria notado e não descreveu. E, em 2022, a virologista Antoinette van der Kuyl levantou a possibilidade de um rabdovírus desconhecido, família à qual pertence o vírus da raiva.
Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada. O obstáculo é técnico e brutal: se o agente for um vírus de RNA, ele praticamente não sobrevive em ossos e dentes antigos, e as ferramentas atuais de análise de material genético antigo não conseguem recuperá-lo.
O que ficou em Buckden
Os túmulos dos irmãos Brandon continuam lá, em Buckden. Van der Kuyl aponta exatamente essa possibilidade em seu artigo: são duas vítimas identificadas, datadas com precisão, descritas por um médico competente e enterradas em local conhecido.
Ninguém escavou. A própria pesquisadora considera prematuro, porque a chance de recuperar material genético útil hoje é baixa demais para justificar abrir as sepulturas.
É uma situação incomum na história das epidemias. Sobre a peste negra, os relatos clínicos medievais são vagos e o agente foi identificado geneticamente em ossadas. Sobre o suor inglês, temos um relato clínico excelente e nenhum agente.
Sabemos como a doença se comportava hora a hora. Não sabemos o nome dela.
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História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari
O motivo da recomendação: Ujvari é infectologista brasileiro do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e escreve para leitor comum, não para colega de profissão. O livro percorre as grandes epidemias da Grécia antiga ao presente e explica, em linguagem acessível, como a ciência tenta identificar um agente causador séculos depois do surto. É exatamente o instrumental que falta ao leitor quando encontra uma doença como o suor inglês, que deixou relato clínico impecável e nenhum culpado. Bônus: por ser brasileiro, o autor trata também de epidemias que a bibliografia europeia costuma ignorar.
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O FATO QUE SE CONTA
Entre 1485 e 1551 uma epidemia varreu a Inglaterra cinco vezes, matando adultos jovens e saudáveis em menos de um dia e preferindo os ricos aos pobres. Depois do último surto ela sumiu do mundo, e até hoje ninguém identificou o agente causador.
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