
O FATO QUE SE CONTA
A literatura religiosa mais antiga que se conhece não está em um livro. Está esculpida nas paredes das câmaras funerárias de pirâmides egípcias do Reino Antigo, começando pela de Unas, por volta de 2350 antes da era comum.
Em 1880, em Saqqara, um chacal foi visto desaparecendo por uma brecha no flanco da pirâmide de Pepi I. Operários que o seguiram pela abertura escura tropeçaram numa descoberta que Auguste Mariette, chefe das escavações francesas no Egito, recusou-se a aceitar.
As paredes internas estavam cobertas de hieróglifos. Do piso ao teto, em colunas rigorosamente alinhadas. Até então, todas as pirâmides conhecidas, sobretudo as de Gizé, tinham câmaras nuas. Mariette morreu em janeiro de 1881 sem ter visto o que Gaston Maspero, seu sucessor, confirmaria pouco depois.
O que estava escrito ali era a mais antiga literatura religiosa extensa conhecida.
A pirâmide que não deveria falar
Mariette havia construído sua carreira sobre uma convicção. As pirâmides de Gizé, que conhecia bem, tinham câmaras nuas. Portanto, concluía, todas as pirâmides tinham. Quando as primeiras cópias dos hieróglifos de Pepi I chegaram até ele, considerou-as falsas.
Maspero, que assumiu em 1881, entrou nas pirâmides de Pepi I, de Merenré e, por fim, na de Unas, último faraó da V dinastia. A pirâmide de Unas é a mais antiga do grupo. Foi concluída por volta de 2350 antes da era comum e inaugurou a prática.
Na antecâmara e na câmara funerária, os hieróglifos ocupam cada superfície. Colunas verticais estreitas, originalmente preenchidas com pigmento azul, destacam-se contra o calcário pálido. Nenhuma imagem narrativa. Só escrita.
Mais de setecentas fórmulas distintas foram catalogadas. Nenhuma pirâmide traz todas. A de Unas guarda 283. A de Pepi II, mais de 650. Cada rei escolheu, acrescentou, revisou.
Fórmulas para a travessia
Essas fórmulas tinham um propósito preciso. Garantir que o faraó, uma vez morto, atravessasse em segurança o espaço entre a câmara funerária e o céu e lá se juntasse aos deuses como um deles.
A travessia era perigosa. O morto podia perder o caminho, ser atacado por serpentes, cair em armadilhas do outro mundo. Para cada risco, uma fórmula. Sobretudo para as serpentes. "Afasta-te, serpente!" é um começo recorrente.
Entre os ritos registrados está a abertura da boca, praticada sobre a múmia para devolver ao faraó a capacidade de respirar, falar, comer e usar os sentidos no outro mundo. Os feitiços descrevem gestos, palavras e instrumentos.
A ascensão era o ponto alto. O rei subiria por uma escada, por uma rampa, pelo raio de sol que atravessa as nuvens. Tornava-se estrela imperecível, daquelas que giram sem nunca se pôr. Ou se juntava à barca solar de Rá para navegar com ele.
Alguns feitiços assustam. O chamado Hino Canibal, presente nas pirâmides de Unas e Teti, descreve o rei devorando os deuses para absorver sua força. Caça-os, cozinha-os, come-os. A egiptologia debate há mais de um século se é metáfora, resíduo de uma teologia abandonada ou algo que ainda escapa aos tradutores.
A longa descendência das paredes
A prática de inscrever câmaras funerárias cessou com o colapso do Reino Antigo, no fim do terceiro milênio. Mas as fórmulas não desapareceram.
No Reino Médio, aproximadamente entre 2000 e 1700 antes da era comum, altos funcionários passaram a inscrever versões adaptadas desses feitiços nas paredes de seus caixões de madeira. É o corpus hoje chamado de Textos dos Sarcófagos. Mais de mil feitiços foram catalogados, muitos derivados dos originais do Reino Antigo.
No Reino Novo, a partir do século XVI antes da era comum, essas fórmulas migraram para rolos de papiro depositados junto ao morto. É o chamado Livro dos Mortos, embora os egípcios da época o chamassem de "Livro para Sair ao Dia". Quem pudesse pagar pelo rolo ganhava acesso às palavras que, no Reino Antigo, pertenciam apenas aos reis.
O que começou gravado numa câmara para um único faraó, por volta de 2350 antes da era comum, tornou-se, ao longo de mil e quinhentos anos, patrimônio funerário de boa parte da sociedade egípcia.
O que estava antes da pedra
Mesmo os Textos das Pirâmides não são o começo da história.
Algumas fórmulas usam linguagem já arcaica para o próprio Reino Antigo. Fazem referência a mitos citados de passagem, como se o leitor já devesse conhecê-los. Os egiptólogos conhecem fragmentos esparsos, insuficientes para reconstruir as histórias completas.
A inferência é consistente. Havia uma tradição religiosa oral, provavelmente muito mais antiga que o Reino Antigo, com mitos e rituais já estabelecidos quando esses feitiços foram postos por escrito.
O que lemos nas paredes de Unas é um recorte do que já se dizia, recitava e cantava havia séculos ou talvez milênios.
Quando se desce hoje à câmara funerária de Unas, aberta a visitantes, o que se vê não é apenas um dos mais antigos conjuntos de textos religiosos do planeta. É o eco escrito de uma tradição ainda mais antiga, cuja extensão exata jamais conheceremos.
O QUE SE SABE, O QUE SE SUPÕE, O QUE SE PERDEU
Sabe-se que os Textos das Pirâmides começam a aparecer na pirâmide de Unas, último faraó da V dinastia, por volta de 2350 antes da era comum, e continuam ao longo de toda a VI dinastia, inclusive em pirâmides de rainhas. O conjunto reúne mais de setecentas fórmulas.
Supõe-se que boa parte das passagens mais arcaicas repete material oral muito mais antigo que o próprio Reino Antigo. Muitos trechos obscuros só podem ser lidos à luz de versões mais tardias dos mesmos feitiços, nos Textos dos Sarcófagos.
Perdeu-se o acesso direto aos mitos que os feitiços citam de passagem. Deuses são nomeados, episódios são aludidos, e nenhuma fonte posterior preserva essas narrativas de forma completa.
ARCANA HISTÓRIA
A História que você não aprendeu, contada como ela realmente foi.
ESPAÇO DO PATROCINADOR DESTA EDIÇÃO
Esta edição chega até você gratuitamente graças a quem anuncia aqui
NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI
“If I were a farmer, I would absolutely use AI.”
That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA.
And he's pointing to one of AI’s biggest untapped opportunities: Farming. It’s an industry facing mounting pressure to produce more with less and it’s still massively under-automated.
DIT AgTech brings AI, nutrition automation, and real-time data to livestock production, helping ranchers boost productivity and get more from every animal.
And it’s already proven in one of the world's toughest livestock environments:
500+ units deployed
370,000 head of livestock on the platform
Up to 55% higher daily weight gain
Now expanding into the U.S. and Brazil, DIT AgTech is targeting a 300M+ head cattle market. And the biggest barrier to adoption? Gone. Ranchers get the technology for free when they sign up for a three-year nutrition plan.
DIT AgTech can scale adoption faster, which means more data and more recurring revenue.
Invest before this early-stage opportunity gets harder to access.
𝘐𝘯 𝘮𝘢𝘬𝘪𝘯𝘨 𝘢𝘯 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘮𝘦𝘯𝘵 𝘥𝘦𝘤𝘪𝘴𝘪𝘰𝘯, 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘰𝘳𝘴 𝘮𝘶𝘴𝘵 𝘳𝘦𝘭𝘺 𝘰𝘯 𝘵𝘩𝘦𝘪𝘳 𝘰𝘸𝘯 𝘦𝘹𝘢𝘮𝘪𝘯𝘢𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘪𝘴𝘴𝘶𝘦𝘳 𝘢𝘯𝘥 𝘵𝘩𝘦 𝘵𝘦𝘳𝘮𝘴 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘪𝘯𝘤𝘭𝘶𝘥𝘪𝘯𝘨 𝘵𝘩𝘦 𝘮𝘦𝘳𝘪𝘵𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘳𝘪𝘴𝘬𝘴 𝘪𝘯𝘷𝘰𝘭𝘷𝘦𝘥. 𝘋𝘐𝘛 𝘈𝘨𝘛𝘦𝘤𝘩 𝘩𝘢𝘴 𝘧𝘪𝘭𝘦𝘥 𝘢 𝘍𝘰𝘳𝘮 𝘊 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘵𝘩𝘦 𝘚𝘦𝘤𝘶𝘳𝘪𝘵𝘪𝘦𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘌𝘹𝘤𝘩𝘢𝘯𝘨𝘦 𝘊𝘰𝘮𝘮𝘪𝘴𝘴𝘪𝘰𝘯 𝘪𝘯 𝘤𝘰𝘯𝘯𝘦𝘤𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘪𝘵𝘴 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘢 𝘤𝘰𝘱𝘺 𝘰𝘧 𝘸𝘩𝘪𝘤𝘩 𝘮𝘢𝘺 𝘣𝘦 𝘰𝘣𝘵𝘢𝘪𝘯𝘦𝘥 𝘩𝘦𝘳𝘦: https://bit.ly/4bzuWCi


